Arquivos: 10/12/2009 - Transcrição
APRESENTADOR: LUCIANO SEIXAS
Na pauta do programa de hoje, as metas voluntárias para reduzir a emissão de gases, que provocam o efeito estufa, que o Brasil irá apresentar na 15ª Conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas a COP-15, que começou dia 7 em Copenhague. O chanceler também vai falar sobre uma das prioridades da política externa brasileira, o aperfeiçoamento do Mercosul. Vamos conversar ainda sobre as metas e propostas da UNASUL e a Crise Financeira Internacional do último ano, a mais profunda desde 1929, que passou ao largo do Brasil. Hoje há um volume inédito de investimentos estrangeiros no país. A taxa de crescimento, já está próxima de 5% ao ano, apesar do Cenário Internacional desfavorável, o que leva o Banco Mundial a estimar que em uma década o Brasil será a 5ª economia do planeta. O ministro Celso Amorim começa agora a conversar ao vivo com âncoras de emissoras de rádio de todo o país e a primeira participação vem de São Paulo.
RÁDIO JOVEM PAN-AM-SÃO PAULO(SP)/ULISSES NETO: A minha primeira pergunta é sobre Honduras. Durante a noite de ontem, nós tivemos a tentativa frustrada do presidente Manuel Zelaya de deixar a embaixada do Brasil em Honduras pra seguir ao México, como convidado do presidente Felipe Calderon. O governo de fato negou o salvo conduto para Zelaya, alegando que ele deveria renunciar e pedir asilo político, o que o líder deposto não aceitou. Como o Itamaraty, ministro Celso Amorim, está acompanhando esta situação, e qual será o próximo movimento da diplomacia brasileira nessa questão, que já se arrasta desde junho?
Ela se arrasta, mas ela teve modificado a sua configuração. Agora, nós temos acompanhado, especificamente esse último movimento, acompanhamos de muito perto. Ontem mesmo falamos com o presidente Zelaya à noite, pouco antes de passar o que você estava contando. Falei também com a ministra do México, porque o próprio Brasil, juntamente com a Argentina, gestionou com o México, para que o México pudesse receber o presidente Zelaya. Essa alegação do governo de fato, do governo golpista é totalmente inédita, inaudita. Você não pode criar condições, quando a pessoa quer sair do país. Se eles querem dizer que eles consideram de qualquer maneira o Zelaya, uma vez saindo como asilado, é um problema deles considerarem, mas não impedir essa saída, querer que a pessoa escreva antes num documento, isso não existe, nunca vi isso. O Brasil há alguns anos atrás recebeu aqui o presidente Gutierres que tinha sido deposto do Equador, circunstâncias diferentes, e recebeu sem criar condições, e o que acontece depois é outro problema. Isso ai apenas demonstra a total, digamos que quase que marginalidade desse governo de fato em relação as normas internacionais.
RÁDIO JOVEM PAN-AM-SÃO PAULO(SP)/ULISSES NETO: Eu gostaria de perguntar ao ministro, porque não há nenhuma indicação de que Zelaya poderá retornar ao governo e também por outro lado, vencedor da eleição presidencial Porfírio Lobo, já tenta até angariar apoio para o seu futuro governo. Ainda que o Brasil não reconheça a validade das eleições Hondurenhas, o senhor poderá articular algum acordo diretamente com o Pepe Lobo?
MINISTRO: Olha vamos deixar as coisas correrem, eu acho que no momento, a nossa preocupação principal é continuar mantendo a segurança do presidente Zelaya. Garantir que ele, como deseja aliás, saia do país, seja em que qualidade for, porque eu acho que isso é meio indiferente no momento, e ai se tiver que haver um diálogo entre uma parte e outra, haverá. Isso ai, com o passar do tempo, o povo hondurenho encontrará sua solução. Agora, que as eleições não foram legítimas, elas não foram, isso é uma questão, que decorre diretamente do que já achava a OEA unanimemente, do fato de que houve contrariamente a constituição inclusive hondurenha, estado de sítio durante o período da campanha. Enfim, uma série de outras repressões, inclusive a rádios, como você sabe muito bem.
RÁDIO BANDEIRANTES-SÃO PAULO(SP)/LEANDRO MANÇO: A pergunta também é em relação a Honduras, eu queria saber como é que o governo brasileiro e o Itamaraty participaram dessas negociações, para tentativa de saída do presidente deposto Zelaya para o México. Há quanto tempo isso está em pauta dentro do Itamaraty e quais foram as conversas com o presidente Zelaya, o Itamaraty e o governo Mexicano? Bom dia sr. ministro!
MINISTRO: Olha deixa-me dizer: primeiro que essas ações diplomáticas todas tem que envolver uma certa discrição. Agora eu não tenho nenhum inconveniente ai em dizer a você, que isso partiu do próprio Zelaya, já depois do dia dois, quando o Congresso votou contrariamente a sua volta ao poder. E o próprio presidente Zelaya, nos fez saber do seu desejo de ir para um outro país, ele próprio mencionou o México e nos pediu, que também conversássemos com o governo mexicano, juntamente com a Argentina. Ele queria que dois países de peso da América do Sul tivessem um envolvimento, no nosso caso, o envolvimento é mais do que óbvio, porque ele está na nossa embaixada também, e nós conversamos com o governo mexicano, aliás houve até uma oportunidade, porque a chanceler do México estava, Patricia Espinosa estava na reunião do Mercosul, conversamos. Prontamente o México, como aliás é da sua tradição, diz que não teria dificuldade de recebê-lo e ai, depois já era uma questão mais mecânica e essas discussões sobre mecânica, que teria um carro, um avião etc., prosseguiram durante a noite, e eu confesso a você que acordei hoje pensando que o Zelaya já estaria no México e fui surpreendido com a notícia de que teria havido essa dificuldade por uma exigência absurda.
RÁDIO BANDEIRANTES-SÃO PAULO(SP)/LEANDRO MANÇO: Como é que o presidente Lula tem acompanhado esse assunto em Honduras? Há algum temor por parte do presidente, de que o Brasil fique isolado nesta questão, já que o Brasil está participando inteiramente do assunto. O presidente Lula teme isolamento por conta da presidência do Zelaya dentro da embaixada brasileira?
MINISTRO: Veja você, em primeiro lugar o presidente Lula não teme, não fica temendo fantasmas, isso aqui, eu sei que os fantasmas faz parte um pouco as vezes da necessidade da mídia criar fantasmas, até pra poder criar notícia. Nós tivemos um comportamento absolutamente tranqüilo, correto. Não há nenhuma razão para supor, o próprio presidente Zelaya dias atrás fez uma carta aos seus seguidores dizendo, que eles devem manter oposição, mas sempre por meio pacífico, aliás foi a maneira que ele agiu o tempo todo. E essa imaginação sua, me desculpe dizer, essa imaginação sua de que nós podemos ficar isolados é uma fantasia, porque na realidade toda América do Sul, toda América Latina e Caribe votou de maneira muito clara, que uma condição para reconhecimento das eleições em Honduras seria a restituição prévia do presidente Zelaya. O que, que vai ocorrer no transcurso do tempo, vamos esperar o tempo agir, vamos esperar as atitudes. Muitas vezes situações que não são perfeitas, mas que caminham. Agora nós não temos nenhuma intenção de reconhecer essas eleições a curto prazo. Foi reiterado pelos países do Mercosul agora, mas nos interessa muito sim, que o presidente Zelaya, possa sair em segurança, que a nossa embaixada não seja de maneira nenhuma atacada, como aliás o próprio Conselho de Segurança das Nações Unidas, não há órgão que tenha mais autoridade do que ele, exigiu. Então é isso que nós vamos trabalhando com total tranqüilidade. Essa ideia de isolamento do Brasil só existe, essa percepção, só existe no Brasil de alguns setores.
RÁDIO CBN - RIO DE JANEIRO(RJ)/VANESSA MAZZARI: Eu queria saber como é que o Brasil está se posicionando, nessa questão dos impasses em Copenhague, inclusive em relação a proposta da Dinamarca, que sugere que todos os países, incluindo os em desenvolvimento, tenham metas de redução de gases do efeito estufa a partir de 2020. Também a respeito do (...inaudível)que está exigindo metas mais rigorosas contra o aquecimento global?
MINISTRO: Veja bem, primeiro vamos deixar claro, qual é a posição do Brasil. Contrariamente a maneira como alguns setores da mídia noticiaram, que o Brasil exigia metas mais rigorosas pros ricos, e não queria metas pra si. O Brasil já lutou, o presidente Lula disse, que teremos uma meta voluntária dentro do que é a estrutura do acordo. A estrutura do acordo é essa, ela prevê desde o início, tratamento, ou seja, são responsabilidades comuns mas diferenciadas. Portanto, o Brasil tem responsabilidade assumiu uma meta muito ambiciosa citada por todos, inclusive, pelo secretário-geral da Conferência dando como um exemplo. Eu acho até que a posição do Brasil motivou outros países que não haviam feitos, você pode dizer que é coincidência, mas países como China, Índia, Estados Unidos não haviam apresentados números, depois que o Brasil apresentou, eles apresentaram. Agora você não pode querer que os países se exonerem das responsabilidades que haviam já adotado em Kyoto, por um oportunismo. Os países ricos como eles sabem que os Estados Unidos terão, problema não é com o Brasil, não existe, como os Estados Unidos dificilmente poderão assumir uma meta do tipo da de Kyoto outros países ricos estão querendo pegar carona pra baixar o seu nível de emissões. Isso é inaceitável, agora o Brasil tem sim uma meta, uma meta de chegar perto de 40% de redução de emissões de carbono 36 a 39, quer dizer, muito perto de 40 a redução de emissões de carbono até 2020 em relação ao que seria a trajetória normal, porque é exatamente que se pede que os países em desenvolvimento faça, então o Brasil está fazendo absolutamente tudo, agora, o mais é jogo de cena.
RÁDIO CBN - RIO DE JANEIRO(RJ)/VANESSA MAZZARI: Em relação a situação de Manuel Zelaya eu queria saber como é que a embaixada brasileira está fazendo para resolver a questão do adiamento da saída do presidente deposto.
MINISTRO: Veja bem, nós não estamos querendo expulsar o Manuel Zelaya da nossa embaixada. Ele tá la sobre nossa proteção este é um fato reconhecido pela OEA, reconhecido pela ONU, o conselho de segurança exigiu proteção, então nós deixamos que isso ocorra de uma maneira que um presidente legitimo não se sinta acossado. Ele manifestou desejo de sair, pediu nossa ajuda para que falássemos com um terceiro país que é um país amigo que é o México, isso foi feito, agora esses contatos agora do salvo-conduto como ele não vem para o Brasil normalmente, mas isso já é uma mecânica, normalmente o país que está concedendo o asilo faz esse contato que foi o que o México fez ontem. E imagino que o próprio México tenha ficado surpreso com essa atitude totalmente imprevista do governo de fato porque quando eu falei até ontem, acho que deveria ser nove horas da noite, hora do Brasil, havia muita tranquilidade de que as coisas iriam se passar de maneira correta. Vamos agora aguardar um pouquinho vê se talvez haja algum outro país, algum governo interessado, que faça com que essas pessoas que estão no poder em Honduras tenha um mínimo de sensatez e ajudem a resolver esse problema.
APRESENTADOR: Ministro o senhor poderia nesse início de programa detalhar a proposta brasileira para a COP-15? Que vai ser apresentada na COP-15?
MINISTRO: Ela está sendo, vamos distinguir duas coisas, uma coisa é que o Brasil vai fazer, e outra coisa é a negociação do conjunto do documento. Em relação a que o Brasil vai fazer eu acabei de dizer que o Brasil vai ter uma redução em relação ao que seria a trajetória normal de emissões de carbono de perto de 40%, isso vai impor uma ação decidida do governo brasileiro dos sucessivos governos brasileiros até 2020, mas é uma coisa totalmente compatível com nosso desejo de tornar a nossa economia social e ambientalmente sustentável, isso é um desejo do Brasil e nós vamos fazer isso. O Brasil inclusive não disse, não condicionou, é claro que se houver recursos externos faremos com muito mais facilidade. Agora a negociação envolve outros aspectos, envolve quantos países ricos vão fazer e ai nós temos que exigir que eles façam reduções compatíveis com o que eles já poluíram no planeta. Porque tudo isso no fundo tem a ver com o que vai ser, digamos assim, as partículas de carbonos que haverá carbonos e outros gases de efeito estufa na atmosfera. Se eles continuarem poluindo muito eles podem até dizer, há bom, em 2050 estamos dispostos a reduzir em 80%, mas ai não dá mais. É tarde demais, então por isso essa necessidade dessas metas intermediárias. A Europa disse que está disposta a fazer de 20 a 40. Alguns países europeus dizem que está disposto a fazer 30 seria um número minimamente razoável, eu diria 30, agora outros não querem, porque, porque está tomando carona de certa maneira na posição dos Estados Unidos que diz que vai reduzir 17, mas não em relação a 1990 como provê o protocolo de Kyoto, mas em relação a 2005. Então vê-se que tudo isso há um jogo muito grande de propaganda de mídia e o que o Brasil tem feito, e além disso há um outro problema, que é o do financiamento. Porque como os países pobres realmente pobres, quer dizer, o Brasil gostaria de receber recursos também, certamente vai gostar de receber até porque o Brasil vai tomar medidas muito amplas. Só o que nós vamos fazer em matéria de redução de desmatamentos que os 80% que o presidente Lula já disse até na ONU, repetiu etc, só isso é mais do que os Estados Unidos estão se propondo a fazer, em volumes absolutos. Agora em volumes relativos então nem falar. Então é claro que nós vamos precisar de recursos pra isso. São essas as discussões, agora países mais pobres do que o Brasil, Congo, a Nigéria pra eles fazerem alguma coisa eles vão precisar mais ainda de recursos. Sem falar na necessidade de países que estão ameaçados de desaparecer, como é o caso das pequenas ilhas ou que estão se desertificando como é o caso dos países do oeste da África entre outros, isso necessita muito dinheiro sim, e tem de ser dos países ricos. Porque eles é que tem mais, o Brasil está disposto a cooperar o Brasil está disposto a dar cooperação técnica da ajuda etc, de várias formas, energia sustentável energia limpa, temos feito aliás já isso. Mas obviamente os recursos financeiros tem de vir de quem tem mais.
APRESENTADOR: A conferência já começou há quatro dias, o senhor está otimista?
MINISTRO: Eu como sou diplomata de carreira, sou ministro hoje, mas sou diplomata de carreira eu acho que ser otimista é parte do perfil profissional, sempre com uma pontinha de critica de realismo de análise. Mas eu sempre digo, ser pessimista é muito fácil, sou inteligente, eu quando leio vários artigos inclusive alguns infelizmente até de ex-colegas sempre assim puxando para o pessimismo e digo, poxa, como é fácil ser pessimista, difícil é você ser otimista e lutar pelos objetivos.
RÁDIO NOVA ALIANÇA-BRASÍLIA (DF) - ANDERSON MENDANHA: Dentro do que o senhor estava falando sobre a COP-15, nos últimos anos o Brasil atingiu um protagonismo na diplomacia internacional, alguns meios de comunicação nessa última semana falou disso. E o fato de a gente chegar na COP-15 já com dados concretos de redução uma redução substancial, o senhor acredita que o Brasil chega lá de uma posição forte e que pode influenciar de forma significativa o acordo resultante da COP-15?
MINISTRO CELSO AMORIM: Eu estou convencido disso, é claro que quando tiver lá a ministra Dilma e depois o presidente Lula isso vai ainda ser mais reforçado. Mas veja bem, o principal negociador que está lá ajudando a presidência dinamarquesa agora redigiu um documento esse sim, um documento que pode ser uma base de negociação, não aquele outro que vazou, é o brasileiro, é o embaixador Figueiredo que já era presidente de um dos principais grupos de trabalho da preparação da reunião. O anúncio que o Brasil fez dessas metas voluntárias, voluntárias, mas não quer dizer que não vai ser cumpridas não é voluntária porque essa é a estrutura do acordo. É como você chegasse no final da Copa do Mundo e dissesse não agora vamos mudar o jogo e digamos vale o gol com a mão, sem ser a mão de Deus, vale o gol com a mão, impedimento agora é penâlti, você não pode fazer isso. Então há um canal de normas que orientou a negociação, é isso que nós estamos fazendo. E a nossa posição forte de uma metas que o Brasil vai fazer, porque o Brasil precisa, o Brasil quer ter uma economia ambientalmente saudável, é uma exigência da opinião pública brasileira, nós não estamos fazendo isso para agradar A, B ou C não, agora não podemos também cair no conto da carochinha que eles vão fazer menos, ou que eles vão deduzir através de créditos de carbono toda obrigação deles que eles vão deduzir da obrigação deles tudo aquilo que for negociado, por exemplo, para manter uma floresta ou para um outro projeto qualquer de desenvolvimento sustentável, então ai nós não podemos aceitar. Porque ai seria aceitar que o aquecimento global continue.
Veja bem eu fui a Bali, em Bali eu fui o chefe da delegação juntamente com a ex-ministra Marina, e naquela época para mim ficou muito claro, mesmo que o Brasil faça tudo que se peça que se pede dele, que aliás é o que ele tem feito e até mais, vamos dizer que o Brasil faça tudo isso. Mas se os países ricos continuarem a poluir a Floresta Amazônica vai acabar do mesmo jeito. Porque o aquecimento global vai impedir que o ecossistema se mantenha, independentemente do que nós fizermos lá. Por isso nós temos sim que ser exigentes em relação aos países ricos. Vamos obter tudo agora? Não sei isso é uma questão que nós temos que discutir, as vezes também o perfeito é inimigo do bom, temos que ir indo, mas não podemos cair no conto da carochinha que são os países em desenvolvimento, que o Brasil tá na frente disso, o Brasil tá na vanguarda. Por isso o Brasil fez um documento com a França que eu espero, fez já o presidente Lula e o presidente Sarkozy, divulgaram isso há uns 20 dias atrás, que pode ser uma ponte entre os países ricos e os países em desenvolvimento.
RÁDIO NOVA ALIANÇA-BRASÍLIA (DF) - ANDERSON MENDANHA: Na sua experiência o senhor acredita que os países ricos podem sair de lá com alguma coisa concreta também, que possa colaborar nesse perfil climático para o futuro?
MINISTRO: Não, isso tem que ocorrer. Isso, aliás, está estabelecido. Os países ricos tem que aprofundar as metas que tinham assumido em kyoto. Um caso especial é o caso dos Estados Unidos. Na realidade, vamos aqui entre nós, já que tem poucas pessoas na sala, vamos aqui entre nós ver o que os Estados Unidos quer fazer. Mesmo com toda a boa vontade do presidente Obama, houve uma mudança de atitude, indiscutivelmente, porque antes havia uma negação total. Então, houve uma mudança de atitude. Isso é positivo. Há uma meta declarada, ela é insuficiente, é. Mas é positivo que eles tenham pelo menos chegado, avançado em relação a esse ponto.
No fundo, no fundo, os Estados Unidos querem tratamento de país em desenvolvimento. Eles querem no fundo, que a meta deles seja, assim, digamos, de baixo para cima. Quer dizer, vamos tomar uma série de ações e aí isso vai chegar à tanto. E, além disso, a meta não é em relação a 90, é em relação a 2005. Então, o que acontece não é... talvez até a gente possa conviver com isso, melhorando um pouco, etc. O problema é evitar que os outros países ricos Japão, Canadá, Austrália e os países europeus, queiram pegar carona nessa atitude e que queiram ser tratados como países em desenvolvimento. Porque no fundo, no fundo, esse tal famosos documento que vazou, ele caminhava nessa direção. Quer dizer, botar tudo no mesmo balaio.
Você não pode botar tudo no mesmo balaio. Agora, isso não que dizer que o Brasil não tenha as suas metas, que não vá cumprir as suas metas, que não esteja disposto a permitir um sistema de discussão sobre essas metas. Não há nenhum problema.
RÁDIO EXCELSIOR- SALVADOR (BA)/EDSON SANTARINI: O Brasil já anunciou uma diminuição de 36 para 39, suas emissões projetadas para 2020. Como o país irá operacionalizar essa diminuição, já que há uma perspectiva de crescimento econômico para os próximos anos?
MINISTRO: Olha, primeiro esse cálculo foi feito pensando em um crescimento que pode chegar até 6%. Então eu acho que tudo isso foi levado em conta. Há várias formas. Eu já expressei uma deles que é a diminuição do desmatamento, que talvez responderá pela maior parte da diminuição. O que não tem nenhuma contradição com o crescimento, com o desenvolvimento. Mas também em muitos outros aspectos podemos ter essa diminuição através de medidas de desenvolvimento limpo. Vou dar um exemplo, porque eu não sou técnico nisso. Isso aí já não a é área do ministro das Relações Exteriores. Mas, pelo que eu conheço e tenho ouvido, se eu cometer algum erro aí, que me perdoem. Por exemplo, a idéia da siderurgia verde. Quer dizer, você, ao invés de usar carvão mineral que é altamente poluente, altamente emissor de CO2, que você possa fazer a sua siderurgia baseada em carvão de floresta sustentável. Então, você está plantando e ao mesmo tempo, portanto, seqüestrando o carbono, e isso tem um efeito. O próprio uso do etanol de outros biocombustíveis vão ter o mesmo efeito. O uso maior de hidrelétricas em relação à termoelétricas - a ministra Dilma falou disso outro dia - todas essas medidas e outras. Estou dizendo as mais óbvias que eu conheço, farão com que o Brasil possa crescer, e ao mesmo tempo diminuir as emissões de CO2. Agora, além disso há outras medidas de eficiência energética que podem e devem ser tomadas.
RÁDIO EXCELSIOR-SALVADOR (BA)/EDSON SANTARINI: Com esse fortalecimento do Brasil com a América do Sul, que é uma prioridade inclusive da política externa brasileira, como o ministério vai fazer para salvaguardar os interesses do Brasil? Já que o Brasil está em uma dinâmica econômica muito interessante, e as perspectivas são muito boas nos próximos anos? Como isso será feito para que os interesses econômicos do Brasil sejam fortalecidos e protegidos?
MINISTRO: Fortalecendo a integração. Eu acho que é o que temos feito nos últimos anos. E, se você for examinar e estrutura do comércio exterior do Brasil, você vai ver. Tiremos 2009 que é um ano atípico, e atípico para muitos lugares, não apenas aqui para a América do Sul, você vai ver que o crescimento das nossas exportações para a América do Sul, Latina e Caribe em geral, foi notável. Hoje em dia a América Latina e Caribe, se você tomar a região como um todo, é o principal destino das exportações brasileiras. Mais do que a União Européia, bem mais do que os Estados Unidos. Então, ao crescer e o conteúdo de manufaturas nessas exportações, é muito grande e já estamos, na realidade, fazendo isso. Os investimentos brasileiros em todos esses países tem crescido, nós temos procurado manter relações de amizade, de compreensão, de entender um pouco os processos políticos que estão ocorrendo na América Latina e Caribe. Não tem uma atitude de antagonismo. E, ao mesmo tempo dizer, onde que estão os limites.
Graças a isso nós temos obtido uma relação muito boa. A nossa relação com os nossos vizinhos, inclusive aqueles que se afiguravam, possivelmente mais difíceis, tem continuado positivamente. Empresas brasileiras continuam interessadas em investir na Bolívia, em setores variados. Temos encontrado boas soluções para os problemas com o Paraguai. Com a Argentina, hoje em dia, temos bom relacionamento. Lá surgem problemas, é natural. Veja bem, as pessoas aqui tendem a emocionalizar (sic) demais. Mas, não quer dizer que a gente não vai defender interesses. Claro que vai defender. Conversamos e o presidente Lula tem conversado com a presidenta Cristina Kirchner, quando surge um problema. Eu falo com o chanceler taiano. Os ministros da Indústria e Comércio se falam. Agora, veja bem, só existe problema comercial onde existe uma relação intensa. Então, a gente tem que desdramatizar isso.
Eu, quando fui embaixador na OMC, e antes no Gate, eu posso lhe dizer. Quando eu era embaixador no Gate então era muito comum. Os problemas que mais surgiam eram entre Canadá e Estados Unidos. Dois países amigos, que tem intensa relação, porque é assim. O que não surge muito é problema comercial entre o Brasil e, sei lá, o Miamar. Porque tem relação pequena.
RÁDIO 730-GOIÂNIA (GO)/NATÁLIA LIMA: Como é que o Brasil também vai se organizar em relação à conscientização dos gestores, dos empresários e da população para cumprir esta meta estabelecida em Copenhague?
MINISTRO: Isso é um trabalho de educação, de conscientização. Veja bem, eu estou muito bem surpreendido. As pessoas falaram muito do tamanho da delegação brasileira. É porque o Brasil é um país muito democrático e muito aberto. E não só em Copenhague não, foi muito aberto nas reuniões da OMC. Quer dizer, ONGs entram na nossa delegação. E, agora também, para as pessoas terem acesso às reuniões, nós demos credenciais a todos. Mas, o que eu ia comentar é o seguinte, a delegação da indústria, da CNI, é maior do que a delegação do governo brasileiro. Eu acho isso ótimo. Porque eles estão vendo diretamente, as medidas que terão que ser tomadas. E, revelam um interesse que é fenomenal. Eu acho que não é uma atitude de negação. O Brasil tem uma atitude de enfrentar os problemas, de enfrentar de maneira criativa, como enfrentamos com o etanol, como estamos enfrentando com outras situações. Eu mencionei há pouco a questão da siderurgia com base em florestas sustentáveis. Eu acho que é um grande interesse. Eu vejo nossos empresários muito bem engajados nesse processo. Claro, tudo isso exige um trabalho de educação. Mas eu acho que essa consciência ambiental no Brasil é muito forte. Eu diria que o fato talvez da Rio 92 ter se realizado aqui, ajudou muito a criar essa consciência. E, o Brasil tem uma fortíssima consciência ambiental e isso é válido também para trabalhadores, empresários, para os vários setores da sociedade.
RÁDIO JANGADEIRO FM-FORTALEZA (CE)/ALEX MINEIRO: Caso os negociadores consigam fechar um acordo na conferência de Copenhague, quais as conseqüências na produção de energia? Quanto poderá custar esse acordo?
MINISTRO: Eu não tenho uma cifra exata de quanto poderá custar o acordo. A única coisa que eu posso te dizer, porque isso tem sido abundantemente divulgado, noticiado, por cálculos do Banco Mundial e de estudos específicos. Teve aquele relatório (...inaudível) e outros relatórios, é que o custo de não fazer nada é muito maior do que o custo de fazer. Há um custo, naturalmente, você tem que adaptar sua economia as suas, por exemplo, você menciona a energia, o Brasil nesse campo até já começou antes, porque o Brasil, ao ter mais biocombustíveis, por exemplo, do que gasolina já está dando uma contribuição. O Brasil, se fizer crescer o número de hidrelétricas em relação a termoelétricas também estará contribuindo. Não é um custo que seja muito difícil. Agora, não fazer tem um custo muito grande, porque isso vai ter conseqüência em termos de câmbios climáticos, mudanças climáticas efetivas, para alguns países isso é absolutamente trágico, e para outros, mesmo que não tenha a mesma proporção, não chegue, digamos, destruir um país, ou algo assim, não seria o caso do Brasil, mas teria conseqüências muito sérias, então, o custo de não fazer é muito maior do que o custo de fazer.
RÁDIO ITATIAIA - BELO HORIZONTE (MG)/EDUARDO COSTA: Bom-dia Luciano! Bom-dia ministro! Ministro Amorim, me parece algo meio que surrealista, não que os encontros não sejam bons em qualquer plano, mas me parece complicado que os homens mais importantes do mundo se reúnam em Copenhague não para cada um anunciar o que vai fazer e de certa forma convocar todo mundo da defesa do planeta, mas, meio que um pressionando o outro. A gente lembra que 1992 aqui no Rio, os Estados Unidos não assinaram a convenção da Biodiversidade e depois também divergiram de Kioto, e agora que deviam dar o exemplo, porque são o maior país, têm também toda essa burocracia. O mais esquisito, ministro, não é estranho que a gente esteja relutando e admitir o óbvio que a própria salvação planetária, quando consideramos que nas ruas de Belo Horizonte nós temos uma primavera com um calor insuportável, quando a gente percebe pelas imagens que vêm do mundo inteiro que a questão é grave e urgente?
MINISTRO: Veja bem, você me pergunta se eu acho esquisito? Eu acho esquisito também! Agora, o que eu posso fazer? A realidade é essa! O que eu estou dizendo é que o Brasil está tomando a posição correta. O Brasil, aliás, esse documento que citei, do Brasil com a França, um dos elementos importantes que ele diz é apoio às conclusões científicas, às conclusões desse grupo, cuja sigla em inglês é IPCC, que é o grupo internacional sobre mudanças climáticas, é um grupo de cientistas. E a conclusão deles é taxante, é por isso que nós aceitamos. Já o Brasil foi um dos países emergentes. Essas coisas não aparecem, eu lamento que não apareçam na mídia, porque também eu não posso, graças a Deus, aqui a mídia é livre, fala o que quer, mas a gente gostaria que de vez enquanto ela falasse também algumas boas verdade, e entre elas essa: que o Brasil foi o primeiro país emergente a tomar claramente a posição de que o teto máximo de aquecimento é de dois graus. O Brasil aceitou isso e acabou levando aos outros a aceitarem também, um pouco relutantemente, e que os países têm que ter um pico de emissões. O Brasil tem essa posição, claramente. Então, nós não estamos nessa posição esquisita que você está falando, agora, se outros têm essa posição esquisita, eu acho que cabe à mídia deles,cabe à opinião pública internacional mostrarem que eles estão agindo de maneira errada. Eu volto a dizer: eu não quero aqui, também, sabe, você nessas coisas não pode querer ser a consciência do mundo e achar que todo mundo está fazendo errado e você está fazendo certo, mas eu acho que os Estados Unidos deram um passo, porque eles estavam, como eu disse, em uma posição de negação em relação ao problema, e agora estão começando a andar. Estão andando muito devagar. É como eu disse, os Estados Unidos, fora o fato de que eles não estão pedindo dinheiro, eles se comportam como um país em desenvolvimento, eles querem ter tratamento de país em desenvolvimento. Olha, o mundo pode até aceitar isso por algum tempo, se isso for um preço a pagar para que, no futuro, eles se aproximem de algo que é necessário que todos os países façam, inclusive e sobretudo os ricos, que poluíram mais. Então, é um trabalho quase que didático. Eu acho que o governo Obama é um progresso em relação ao que houve no anterior, mas um progresso ainda muito pequeno em relação ao que é necessário.
RÁDIO ITATIAIA - BELO HORIZONTE (MG)/EDUARDO COSTA: Luciano, eu não posso perder essa oportunidade, embora não esteja na pauta principal do programa de perguntar ao ministro Amorim se essa negação do salvo-conduto do governo provisório lá de Honduras, para Zelaya ir para o México é mais uma frustração nesse processo de extensão que o Brasil tenta levar adiante no país vizinho?
MINISTRO: Frustração, claro que é para todas as pessoas de boa vontade no mundo, todas as pessoas que querem ver a soluções pacíficas para essa questão. Deve ser uma frustração muito grande, acho eu, para os Estados Unidos, cuja diplomacia se envolveu mais profundamente, até do que nós, em encontrar uma solução lá, nem é a que nós preferiríamos, mas de qualquer maneira uma eleição que ocorreu, e deve ser uma frustração também para o governo do México. Veja bem, não foi nem sequer o Brasil que pediu o salvo-conduto, o Brasil apenas intercedeu a pedido do presidente Zelaya. Agora, é uma questão de saber até quando vai a paciência do mundo em relação ao governo que está violando constantemente as normas do direito internacional, inclusive, violando as resoluções da OEA, violando as disposições que já foram adotadas pela ONU. Eu sou confiante de que se vai encontrar uma solução e de que o bom senso prevalecerá. Agora, obviamente, estamos frustrados com o fato de não ter havido aquilo, não foi o Brasil, quer dizer, há uma ideia, eu vejo isso repetido, às vezes pela imprensa, às vezes até por outros políticos. Não foi o Brasil que defendeu que o Zelaya voltasse antes das eleições, foi a OEA, foram todos os países latino-americanos e caribenhos, todos eles reunidos juntos disseram que as eleições sem a volta do Zelaya não seriam legítimas. Esse é um fato real, isso foram todos os países em conjunto em unanimidade, ninguém levantou o dedo para dizer não. Foi uma reunião que houve agora pouco na Jamaica. Depois, o que se vai fazer, o que vai ter um enfoque mais ou menos pragmático, isso como ele disse, o tempo dirá.
Tem países que tem relações muito próximas com Honduras, que não podem se dar um luxo de, digamos, de não ter um relacionamento, porque isso afeta a sua própria economia. Mas, enfim, isso são outras questões, mas eu acho que essa frustração advém do fato de você ter sido excessivamente tolerante com o governo golpistas, e ele está revelando que ele vai além do que se espera, porque, eu garanto a você: eu não conversei com os Estados Unidos sobre esse assunto, esse agora do salvo-conduta, porque achei que não era. Envolvia o México e não era o caso, e aliás, era a iniciativa do Zelaya, mas eu tenho a impressão que eles devem estar igualmente frustrados.
RÁDIO BANDA B - CURITIBA (PR) - DENISE MELLO: Bom-dia ministro! O governo federal anunciou essa meta de reduzir as emissões de gases do efeito estufa no intervalo de 36 a 38% até 2010. Um compromisso voluntário, e a dúvida fica quanto será preciso obter em dinheiro para poder cumprir a meta do país, uma propaganda que circula, uma propaganda do Brasil que circula na Dinamarca sobre o fundo da Amazônia, coloca o seguinte slogan: se você não planeja deixar este planeta, esse anúncio é para você, ou seja, o objetivo é convencer outros países a doar para o país para que conserve a floresta amazônica. E as perguntas que eu lhe faço, ministro, são as seguintes: quanto vai custar essa redução em até 38%, na emissão de gases até 2020 e até que ponto o Brasil conta com o apoio de outros países, especificamente no caso da floresta amazônica?
MINISTRO: Eu posso dizer a você que eu não tenho outros números exatos de quanto vai custar isso tudo mas de qualquer forma, por exemplo, a Noruega se prontificou a integrar o Fundo Amazônia, já efetivou a transferência de mais de US$ 100 milhões, se comprometeu com US$ 1 bilhão ao longo de vários anos e é um exemplo do que pode ser feito, e que terá que ser feito. Agora, há naturalmente, da parte dos países ricos e veja bem, aí, não é só o Brasil, vai custar para o Brasil, nós vamos ter que fazer um esforço, mas custar é relativo, porque, veja bem, eu não sei como serão as negociações comerciais do futuro, eu estive muito envolvido nas negociações da OMC, seguramente, não estarei nas próximas rodadas, porque nem a minha idade permitirá, mas veja bem, haverá cada vez mais uma correlação entre os temas ambientais, climáticos e comerciais, se o Brasil puder, digamos, fazer o que se propõe a fazer. Umas das coisas que eu ouvi discutida. Volto a dizer, eu não sou técnico, nem cientista, mas de produzir aço, usando principalmente carvão vegetal de origem florestal, o Brasil, estará valorizando o seu produto, porque ? Já se fala, eu não estou nem defendendo, é uma questão de ser muito discutida porque as questões são complexas, mas há muitos países que falam em uma taxa de carbono, você cobrar pela intensidade de carbono. Então, o produto brasileiro, por exemplo, um maço produzido nessas condições deverá ter vantagens. Isso deverá ocorrer com o etanol, nós não conseguimos totalmente com o etanol porque existem interesses protecionistas dos países ricos, mas todo mundo sabe que o etanol brasileiro é muito melhor do ponto de vista do ambiente, sobretudo da mudança climática do que a gasolina, que os produtos do petróleo que, por outro lado, o etanol brasileiro é muito mais eficiente por ser de cana-de-açúcar, por ser produzido nas condições que é, com a utilização do bagaço na usina e etc, é muito mais eficiente que o milho e além do que não tem influência na segurança alimentar. Ainda assim os Estados Unidos põem uma tarifa absurda sobre a importação de etanol. Eu acho que essas coisas vão passando porque as pessoas vão aprendendo. Há anos atrás se você fosse discutir com a União Européia a questão do etanol, eles não queriam nem saber por causa dos produtores lá de beterraba, hoje em dia já estão considerando, essas coisas evoluem. O que eu quero dizer para você é o seguinte, em muitos aspectos normas que exijam do mundo uma economia mais verde serão benéficas para o Brasil.
APRESENTADOR: Você está ouvindo o programa Bom dia, ministro, hoje com o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. Agora a participação da rádio Mega, de Campo Grande, Mato Grosso do Sul com Rafaela Gizzi. Bom dia Rafaela.
RÁDIO MEGA - CAMPO GRANDE(MS)/RAFAELA GIZZI: Olá, bom dia, bom dia ministro. A minha dúvida é a seguinte, essa criação de, vou colocar entre aspas, "rede distritas" como o Mercosul, não afasta mais o Brasil de um cenário mundial e colocaria ele ilhado na América do Sul, e que nós déssemos mais atenção ao cenário mundial e não para esse lado regional, seria melhor ou não?
MINISTRO: Olha, o mundo dirá o que é melhor, a história dirá. Eu estou convencido que o primeiro passo que você tem que dar nas relações internacionais é viver bem com seus vizinhos. O Brasil devido ao seu tamanho e sua geografia, ele tem dez vizinhos imediatos na América do Sul, são dez países que ele tem fronteiras, além de dois outros que estão muito próximos que são Chile e Equador. Se você não tem uma boa relação com os seus vizinhos é muito difícil você ter uma boa relação com os outros. Acho que isso é uma norma até da vida normal, acho que isso é um passo essencial. A prática tem demonstrado que América do Sul e a América Latina em geral tem excelente mercado para os nossos produtos manufaturados, para investimentos brasileiros, para a exportação de tecnologia brasileira, estão criando possibilidades fantásticas. O presidente amanhã, por exemplo, vai ao Peru. Até o fim de 2010, as ligações entre o Acre e o Peru estarão completadas. Já no ano passado, no meio da crise, as exportações do Acre para o Peru aumentaram 50%. A integração está sendo altamente benéfica. Agora, para completar o quadro que você está perguntando, o Brasil não descuidou do mundo não. As nossas exportações aumentaram para o mundo inteiro. Nós só não aceitamos acordos que eram totalmente desequilibrados, que criavam problemas muito graves para a nossa indústria, como era o caso da Alca, mas continuamos a negociar e há interesse dos outro em negociar conosco.
Agora na reunião do Mercosul novamente e antes da Ibero-americana, foi reiterado o interesse de acordo entre o Mercosul e a União Européia. Agora veja bem, não vamos ficar pensando que nós só podemos nos relacionar com os países ricos. Temos que nos relacionar com eles sim, mas quanto mais e melhor nos relacionarmos com os outros países da vizinhança e com outros países em desenvolvimento, melhor nos relacionaremos com os países ricos porque eles vão nos tratar com mais respeito. Vou dizer uma coisa para você, estou há muito tempo na diplomacia e eu vi quantas vezes o Brasil, os negociadores brasileiros, foram quase que humilhados por negociadores dos países ricos, devo dizer que isso não se passou comigo em particular, mas ví e soube de cenas que não ocorrem mais hoje em dia. Hoje em dia quando o presidente Obama, o primeiro-ministro Brown, a Angela Merkel vêm falar com Lula, vêm no sentido de cooperação, de ajudar, de negociação, não é como era não "tem que fazer isso", muda a instrução do seu negociador. Muitos dos que agora escrevem artigos sabem que era assim, isso ocorria, ocorria frequentemente.
APRESENTADOR: Ministro, e a quê o senhor atribui o protagonismo que o Brasil conquistou internacionalmente nos últimos anos?
MINISTRO: Bem Luciano, eu atribuo a muitas coisas, você não pode encontrar uma coisa exclusiva. Eu acho que o Brasil vem em um processo de redemocratização que é muito importante e que vem se consolidando e se aprofundando, não vou fazer agora o retrospecto da história, mas tudo que ocorreu nos governos passados e, sobretudo, no governo Lula, em que essa democracia ganhou também um conteúdo social muito mais pronunciado, qual era a grande chaga do Brasil recentemente? Antes não, que tinha ditadura e etc, mas qual é a grande chaga do Brasil no nosso relacionamento externo? A desigualdade. Todos diziam o Brasil é uma país rico, mas um país extremamente desigual. E nós começamos, não é só eu que digo, mas você pega qualquer jornal internacional, qualquer publicação especializada internacional, ela aponta o Brasil como exemplo para a diminuição da desigualdade. Agora mesmo nos estudos recentes, eu que não leio muito os jornais e, as vezes confundo, não sei se foi no Economist ou no Finacial Times, um desses jornais internacionais, comparação até com outros países emergentes dizendo "não, é verdade a China e Índia estão crescendo mais que o Brasil, mas estão aumentando a desigualdade. O Brasil está crescendo e diminuindo a desigualdade", acho isso um fato notável, é um fato que muda a imagem do Brasil diante do mundo,um ponto. Ao mesmo tempo que manteve uma economia macro econômica sadia e etc.
Agora, eu acho, não quero puxar a brasa pra minha sardinha, já que ela não é minha é do presidente Lula, mas acho que a política externa contribuiu para isso, porque nós deixamos de ter uma atitude, digamos, de sempre pedir licença antes do que temos que fazer, de uma atitude timorata. A primeira pergunta que foi feita “mas o presidente Lula não teme?” O presidente Lula não teme, ele considera os efeitos mas não fica temendo. Os outros estavam temendo tudo "se eu fizer isso vai acontecer aquilo". Quando nós criamos o G-20, não o G-20 hoje que é importante e que é dos líderes, mas quando criamos G-20 em Cancún, na reunião da OMC, o G-20 que era um grupo de países em desenvolvimento, muita gente ficou apavorada "mas o que os Estados Unidos vão dizer". O Bob Zelick, que era negociador principal americano, pessoa que tenho ótima relação hoje em dia, presidente do Banco Mundial, ele escreveu um artigo no Financial Times, um artigo digamos uma meia página dessas, com cinco vezes o nome do Brasil. Você pode estar certo que não era para elogiar, então todo o mundo ficava com medo. Graças ao G-20 nós mudamos o padrão de negociação na OMC, nós mudamos a respeitabilidade dos países em desenvolvimento, então claro que nós não chegamos a um acordo final no OMC, mas a gente vai chegar lá algum dia. E ao mesmo tempo, uma coisa que passou muito desapercebida, nós conseguimos negociar um acordo muito importante entre países em desenvolvimento à margem dessa última reunião do OMC, que não concluiu nada como era de se esperar, mas foi uma coisa importante porque os países em desenvolvimento não estão parados. Eu até brinquei, o norte pode estar parado, mas o sul está andando.
APRESENTADOR: Vamos prosseguindo com o programa Bom dia, ministro. Agora a participação da rádio Amazonas AM, de Manaus, de lá fala Patrick Motta. Bom dia Patrick.
RÁDIO AMAZONAS AM - MANAUS(AM)/ PATRICK MOTTA: Bom dia a você, bom dia ao senhores e senhoras ouvintes e bom dia ministro. Ministro sobre a COP-15 a Amazônia brasileira é um dos destaques. Como é que o senhor observa a criação de mecanismos internacionais de incentivo financeiro para a conservação de florestas, no chamado princípio do (...inaudível), que é a redução de emissões para o desmatamento e degradação, ministro?
MINISTRO: Olha nós vemos isso de maneira muito positiva. Achamos que a presença dos governadores amazônicos e certamente outros políticos da Amazônia lá é extremamente importante. As metas que o próprio presidente Lula já estabeleceu para Floresta Amazônica é, evidentemente, um dos aspectos mais importantes da nossa posição e nós vemos com muito bons olhos e positivamente que haja recursos financeiros que possam atender essas necessidades. Claro que uma parte terá que vir de nós, agora uma parte terá que vir do exterior. O ideal Patrick é que a maior parte desses recursos sejam recursos públicos porque, ou de uma forma ou de outra, recursos que não envolvam, tanto quanto possível, meramente créditos de carbono poque se você tiver um mecanismo que seja puramente de criar crédito para eles continuarem poluindo lá, isso pode interessar até um ponto, mas tem um limite, poque a partir de um certo limite a equação não fecha porque eles continuarão a poluir tanto que a Floresta Amazônica será atingida independentemente do que nós fizermos. Tudo requer cálculos delicados, isso ai são coisas técnicas que estão sendo levadas adiante, e por isso nós temos insistido tanto também que é importante, que independentemente do MDL, dos créditos de desenvolvimento limpo, créditos carbono, que haja também recursos financeiros substanciais de origem pública.
RÁDIO AMAZONAS AM - MANAUS(AM)/ PATRICK MOTTA: A meta brasileira a ser apresentada durante a COP-15, ela nos parece bem audaciosa, a redução de 80% do desmatamento da Amazônia até 2020. Isso é um desafio para as autoridades brasileiras. Eu pergunto ministro, a Amazônia pode ser transformar em risco à essa meta?
MINISTRO: Não. Olha eu acho que a Amazônia, pelo contrário, ela vai ser salva, preservada com desenvolvimento. E acho que atitude dos governadores amazônicos, que hoje todos eles têm grande compreensão da importância do desenvolvimento sustentável, da biodiversidade, como isso pode ser um recurso econômico e não apenas um ônus. Eu acho que é muito positivo. Agora audaciosa é porque eu acho pra governar precisa de audácia.
RÁDIO GAÚCHA-PORTO ALEGRE(RS)/LÉO SABALA: Eu não sei se o assunto já foi tratado, mas eu queria permitir fazer uma questão relacionada a Honduras.
MINISTRO: Eu posso dizer que foi tratado a abundância, mas vamos, diga lá.
RÁDIO GAUCHA-PORTO ALEGRE(RS)/LÉO SABALA: Bom tivemos uma novidade agora nas últimas horas com relação ao presidente deposto Manuel Zelaya, a negação do salvo-conduto para que ele deixasse o país. O Brasil vem tomando, tem uma postura de tranquilidade com relação ao caso, vem permitindo com que o presidente deposto Manuel Zelaya permaneça na embaixada brasileira? Minha pergunta é ministro: realmente não está na hora do Brasil tomar alguma medida mais concreta, mais enfática, pra que esse caso tenha um desfecho,principalmente com a saída do presidente Manuel Zelaya da embaixada brasileira ou o Brasil realmente vai continuar na postura de dependência do que eles vão decidir lá em Honduras?
MINISTRO: Olha, não é uma postura de dependência. Infelizmente pra você, você não pode é querer agir lá, infelizmente ou felizmente não pode querer agir lá por meios de força. Nós temos que agir pela diplomacia, que são os instrumentos que nós dispomos. O Brasil agiu em todos fóruns internacionais, obteve apoio da OEA. E já disse isso tudo, mas em fim, paciência. Da OEA, na Assembléia Geral da ONU, do Conselho de segurança, temos tido um bom diálogo com outros atores envolvidos. Nesse caso, por exemplo, conversamos muito com o próprio governo mexicano, que o Brasil não tá inerte nem parado. Agora, a nossa meta principal é a democracia em Honduras. Infelizmente isso vai demorar a ocorrer porque o processo e o que foi negociado, um pouco antes dessas eleições, tiveram lugar lá não foi positivo, mas o próprio presidente Zelaya quer sair. Agora o governo de fato, há outros governos que tem com eles um diálogo mais fluido, vamos dizer assim. São esses governos que terão que mostrar eles a luz, a sensatez que até no interesse deles, e lamento porque eu não tô aqui pra defender dele, mas até do ponto de vista deles eles estariam melhores, se eles já permitissem a saída do Zelaya, que ele permitissem algum tipo de reconciliação nacional.
E essa atitude quase que digamos assim, de querer humilhar o presidente Zelaya, de querer esmagar, de querer que ele assine documentos, eu nunca vi isso, não existe. Chame você do que quiser, de hóspede ilustre, como acho que era que o México estava chamando, ou que o Zelaya estava chamando, sei lá quando ia para o México, chame ele de asilo. Isso são filigranas, ele está saindo do país. Agora, e nunca vi um país querer que assine condições previamente. Quando nós tivemos, por exemplo, recebemos aqui o presidente Gutierrez, do Equador, independentemente da gente concordar ou não com ele, que aliás até a gente não concordava muito, mas isso não tem a ver porque é uma questão de não intervenção, nós recebemos o presidente Gutierrez aqui. Depois, se ele teve A, B ou C comportamento, isso aí é pro governo local considerar, não é pra impor condições, isso não é uma coisa totalmente inaceitável.
APRESENTADOR: Alguma outra pergunta, Léo?
RÁDIO GAUCHA-PORTO ALEGRE(RS)/LÉO SABALA: Só pra complementar com relação ainda a esse caso. Os Estados Unidos, ministro, o senhor acha que deveria ter uma postura diferente do que está sendo até agora, ou, de certa forma, ter interferido mais para que esse caso tenha um desfecho?
MINISTRO: Olha, Leo, eu, como prego a não-intervenção e não gosto muito que outros países venham dizer o que que eu deveria fazer, eu também não fico dizendo o que que outros países devem fazer. Mas como uma constatação puramente de fato, há vários setores, sobretudo o próprio partido Democrata, que têm sito críticos da posição da administração norte-americana. Ela tem suas razões, eu converso frequentemente com a secretária de Estado, ela quando a gente fala em termos gerais, há muita concordância, quando nós passamos pro específico às vezes o comportamento é um pouco diferente. Mas, enfim, nesse caso específico, agora, eu acho que, até porque os Estados Unidos de alguma maneira que intermediaram o acordo que levou à realização dessas eleições e indiretamente está levando o presidente Zelaya a querer sair da embaixada do Brasil, sair de Honduras, eu acho que eles deveriam também, vamos conversar com eles com calma. Até agora nós não tínhamos conversado sobre esse ponto específico que nós conversamos com o México e que nos parecia que estava tudo bem encaminhado. Alías, parecia o México também, que chegou a mandar um avião que teve que mudar no meio do caminho.
RÁDIO JORNAL DO COMMÉRCIO-RECIFE(PE)/WAGNER GOMES:Bom dia, Luciano. Bom dia, ministro. Ministro, (...inaudível) da imprensa americana, (...inaudível) visita do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad ao Brasil e disse que a política externa brasileira, em seus melhores momentos, é um enigma, nos piores, uma vergonha. E que nesse ponto, o Brasil frequentemente se parece com um país de quarto mundo. Em relação à crise em Honduras, Oppenheimer afirma que o Brasil deveria ter sido mais cauteloso antes de prometer que não reconheceria as eleições em Honduras. Segundo ele, a atitude do governo brasileiro é uma posição ridícula porque por um lado, o país pede a suspensão do embargo dos Estados Unidos a Cuba, país que não é multipartidário há 50 anos, e por outro, quer impor sanções econômicas a Honduras que realizou eleições multipartidárias. Quais são os argumentos que o senhor utiliza para convencer o povo brasileiro de que a postura do governo federal neste dois caso é correta, e que o articulista está equivocado.
MINISTRO: Bem, eu não sei se eu entendi tudo o que você falou porque a ligação não estava boa. Eu sei que você se referiu ao artigo do Oppenheimer no Miami Herald, aliás, que ele diga isso não me surpreende porque tem sido a linha permanente que ele tem adotado. Eu respeito, como eu sou muito a favor da liberdade de pensamento, mas se ele acha que a política externa brasileira é um enigma por vezes que ele não conseguiu decifrar, com certeza outros conseguiram. Presidente Sarkozy conseguiu, presidente Obama conseguiu decifrar. Todos os países que nos tratam com respeito, sempre trataram o Brasil com respeito mas tratam hoje com muito mais respeito, presidente Lula está em todos os fóruns internacionais, todas essas pessoas não pensam da mesma maneira que esse colunista de um jornalzinho de Miami que você mencionou. Eu acho compreensível. Agora, eu não me preocupo absolutamente com esse tipo de crítica, sobretudo vindo de quem veio porque eu conheço as opiniões dele, conheço as opiniões dele sobre a situação que houve na Venezuela, a tentativa de golpe que houve lá. Conheço muitas opiniões dele e respeito, as pessoas têm direito de ter as suas opiniões, mas não me surpreende absolutamente que ele tenha dito.
Quanto à vinda do presidente Ahmadinejad, o Brasil tem que ter uma interlocução ampla. O Brasil hoje é um país preocupado com a paz mundial. O Brasil não é um país pequenininho que tem que ficar enfiado só dentro de um casulo. É um país preocupado com a paz mundial. E eu acho que encontrar uma solução pras questões que dizem respeito ao Irã, que aliás, nos foi pedido inclusive pelo presidente Obama, não é por isso que nós fizemos não, mas eu estou mencionando, um autor que talvez o seu autor respeite, nos foi pedido pelo presidente Obama, entre outros, para isso é preciso ter uma interlocução. O isolamento é mau conselheiro. Então, eu acho que manter o Irã isolado é uma receita pro desastre que será muito maior que do grande desastre que foi o Iraque.
APRESENTADOR: Muito obrigado ministro Celso Amorim por sua presença aqui no programa Bom Dia, Ministro desta quinta-feira.