12/02/2009 - PROGRAMA: Bom Dia Ministro, com o ministro da Igualdade Racial, Edson Santos
APRESENTADORA KÁTIA SARTÓRIO: Na pauta do Programa de hoje, a Segunda
Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, que acontece em
junho aqui em Brasília e vai reunir mil e seiscentos representantes de
todo o país, para uma avaliação dos avanços e desafios das diretrizes
das Políticas Públicas definidas na Primeira Conferência Nacional, que
aconteceu em 2005.
O ministro da Igualdade Racial Edson Santos, vai conversar com a gente
também sobre o Brasil Quilombola, o maior programa do governo federal,
voltado para comunidades remanescentes de quilombos, que envolve ações
de 23 ministérios e órgãos públicos, que buscam garantir o acesso a
serviços como instalação de luz elétrica, educação, saúde, capacitação
profissional. E ainda sobre a tramitação do estatuto da igualdade
racial no Congresso Nacional e também da participação da Secretaria no
Encontro Nacional de Prefeitos e Prefeitas, que terminou ontem aqui em
Brasília. O ministro da Igualdade Racial já está aqui no estúdio e
começa agora a conversar com âncoras de emissoras de rádio de todo o
país.
RÁDIO EDUCATIVA-CAMPINAS(SP)/SÉRGIO RODRIGUES: Eu gostaria que o senhor
destacasse alguns dos principais pontos do estatuto da igualdade
racial, que deve ser aprovada ainda esse ano?
MINISTRO: O Estatuto, ele é uma legislação que visa consolidar,
enquanto política de Estado a promoção da igualdade racial. Então nesse
sentido, ele tem elementos como políticas de educação, o recorte racial
da cultura brasileira, a defesa das comunidades religiosas de matriz
africana, a reafirmação do compromisso do Estado brasileiro com as
comunidades remanescentes de quilombo. Enfim, o estatuto ele é uma
legislação que visa assegurar os direitos da população negra, direitos
esses que não foram observados, quando da abolição da escravidão, e que
gerou essa dívida imensa do Estado brasileiro para com esse segmento da
população. O estatuto visa exatamente fixar normas legais que
possibilitem ascenção da população negra, a sua inclusão, no processo
econômico do Brasil de forma qualificada e a mobilidade social dos
negros no Brasil, a partir da educação.
RÁDIO EDUCATIVA-CAMPINAS(SP)/SÉRGIO RODRIGUES: Agora ministro em
relação a inclusão da história da África na rede de ensino, como será a
capacitação dos professores e como o tema será abordado em sala de aula?
MINISTRO: A lei 10.639, nós estamos elaborando junto com o Ministério
da Educação, um Plano Nacional de Implementação dessa lei, porque ela
não depende apenas da ação da Seppir. Como é uma disciplina, que está
sendo introduzida no currículo da educação no Brasil, não só das
crianças, mas do ensino fundamental médio e universitário, ela exige
que o Ministério da Educação efetivamente seja o coordenador da
implementação dessa lei, dialogando com estados e municípios, e também
com universidades no sentido de criarem as condições de qualificar
profissionais para a implementação da disciplina, que é da história da
África e a revisão historiográfica do Brasil, inserindo o papel do
negro na formação do Estado brasileiro.
KÁTIA SARTÓRIO: E como é que está isso junto ao MEC, a negociação junto ao MEC da Secretaria?
MINISTRO: A negociação está muito boa, era pra termos lançado esse
plano em dezembro do ano passado, mas como o MEC inclusive, ele fez um
estudo sobre essa matéria, e entendeu que deveria aperfeiçoar o plano.
Esse lançamento ficou para ser feito ainda no início desse ano de 2009.
RÁDIO BAND NEWS-RIO DE JANEIRO (RJ)/MARIANA BRENER: A atual prefeitura
do Rio tem adotado várias medidas para melhorar as condições de vida na
capital fluminense. Nada porém se fala quanto a promoção da igualdade
social na cidade. O governo federal pretende realizar algum tipo de
parceria com a prefeitura para combater a discriminação, ou melhorar a
condição de vida dos negros cariocas?
MINISTRO: Sim, nós já temos um diálogo bastante avançado com a
prefeitura da cidade do Rio de Janeiro e o prefeito já criou uma
coordenadoria de promoção da igualdade racial, que será efetivamente
numa solenidade apresentada a sociedade no dia 3 de março. A partir dai
a prefeitura do Rio de Janeiro vai estar inserida nesse Fórum
Intergovernamental de Promoção de Igualdade Racial. Eu acho que é um
grande avanço, a cidade do Rio de Janeiro, ela tem praticamente a
metade de sua população de negros e pardos, e não se justifica até esse
momento não termos na prefeitura, um órgão que cuide dessa temática da
Promoção da Igualdade Racial e da criação de oportunidades para jovens,
negros e negras.
RÁDIO BAND NEWS-RIO DE JANEIRO (RJ)/MARIANA BRENER: A Universidade do
Estado do Rio de Janeiro está realizando um estudo, que visa reavaliar
o sistema de cotas. A UERJ foi a primeira faculdade do Brasil a adotar
o sistema em 2001. Passados os 8 anos, qual a sua avaliação sobre o
mecanismo ministro? Ainda é necessária?
MINISTRO: Ainda ele tem produzido efeitos bastante positivos. Estudos
que se tem, até ainda feitos de forma superficial. Há indicadores de
que os estudantes de cotas tem um bom rendimento na universidade, é
baixa a evasão do estudante cotista e nós estamos com isso inserindo
nas atividades econômicas jovens negros e jovens pobres com
qualificação. Então acho que é altamente positivo o saldo da política
de cotas durante esses 8 anos. A UERJ juntamente com a Universidade de
Brasília são pioneiras na implementação da política de cotas.
A Universidade de Brasília já tem um estudo mais ou menos avançado,
mais aprofundado em relação ao impacto desse instrumento dentro da
universidade. E aquela preocupação de que isso iria levar a
universidade a rebaixar o seu nível de ensino não se verificou. Até
porque os estudantes cotistas tem rendimento igual, ou até mesmo
superior aos estudantes não cotistas em curso da área de humanas e
biomédicas. E evidentemente há uma dificuldade maior desses estudantes
em cursos da área de ciências exatas, por conta ainda da sua base de
ensino médio e fundamental ainda precária. Mas isso demonstra o caráter
positivo da adoção dessa medida, e eu acho ainda prematuro fazer-se uma
avaliação do impacto do estudo de cotas na sociedade.
Até porque nós temos que esperar algumas gerações, para nós colhermos o
fruto desse investimento do estado brasileiro e das universidades
brasileiras na educação propiciando aqueles que não teriam acesso a
universidade pelas vias universais, a possibilidade de ser qualificada
para contribuir na sociedade com profissões mais qualificadas.
APRESENTADORA: O senhor disse que a UERJ e a UnB foram pioneiras nesse
sistema de cotas, e as outras universidades públicas do país como é que
é hoje o diálogo entre a secretaria e essas entidades?
MINISTRO: Olha no ano passado eu tive uma conversa com o conselho
universitário da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e com a
Universidade Federal de Goiás. Cada universidade ela dota a política de
cotas de acordo com a sua realidade de acordo com o grau de compreensão
da comunidade universitária. Não existe uma forma única de cotas
adotadas nas universidades. A Universidade Federal de Goiás já adotou a
politica de cotas e está em vigência este ano.
A Universidade Federal Rural ela abriu uma discussão dentro do conselho
universitário, eu estive recentemente com o reitor da universidade
professor Ricardo e á assim uma tendência bastante favorável a adoção
da política de cotas na Universidade Federal Rural. E diga-se de
passagem, universidade essa que já teve lei de cotas, mas era a lei do
boi que facilitava o ingresso na universidade dos filhos de
agricultores e fazendeiros. Agora acho que é hora da população pobre e
da população negra e parda ter acesso também as universidades públicas,
como a Universidade Rural é.
RÁDIO JORNAL-GARANHUNS (PE)/EDUARDO PEIXOTO: A pergunta ministro, aqui
de Garanhuns é a seguinte: a gente nota uma cobrança muito grande da
sociedade contra a questão de o governo fazer algo para os negros entre
outros assuntos, mas até que ponto, qual o ponto de vista do ministro
quanto a sociedade e o pensamento que ela tem contra o negro, ela tem a
parcela muito grande de culpa quanto a esse preconceito ministro.
MINISTRO: Eu acho que você coloca bem a questão do preconceito que é
exatamente a ausência do conhecimento que faz, do histórico da presença
do negro aqui é que chegou como escravo e após o período da abolição
ele não teve espaço na sociedade não teve um lugar na sociedade
brasileira. O Brasil optou pela politica de incentivo a imigração
européia e asiática. E esses ocuparam as funções mais qualificadas, as
fábricas, eram operários das fábricas no Brasil. Só da década de 30 com
a CLT é que foi assegurada a população brasileira que era eminentemente
negra o acesso ao serviço formal existente no Brasil com a lei dos dois
terços de reservas de vagas de dois terços para brasileiros. Então eu
acho que isso marca muito a sociedade brasileira no sentido de ela não
perceber no negro um potencial de contribuição para o processo de
desenvolvimento econômico e social no Brasil.
E isso só se resolve com educação com acesso ao conhecimento e é devido
a esse fato que nós estamos envidando todos os esforços para
implementação da lei 1.639 que vai ser um instrumento bastante eficaz
acredito eu para que nossa população principalmente as nossas crianças
a nossa juventude cresçam libertas desse preconceito dessa visão
discriminatória em relação a população negra.
EDUARDO PEIXOTO: A questão recentemente tem o exemplo do Barack Obama
onde foi eleito presidente da maior potencia mundial, o senhor acredita
que com esse preconceito por ele ser negro existe uma cobrança maior de
diversas pessoas que também tem a importância muito grande no mundo?
MINISTRO: Não, acho que há uma expectativa grande em relação ao governo
de Barack Obama em função das condições em que ele assume a presidência
da República nos Estados Unidos, um momento de uma crise que só se
compara a crise de 1929, pelo que nós temos visto nos jornais tem
priorizado a criação de medidas que visem retomar o crescimento da
economia americana, diga-se de passagem, medidas muito parecidas com
aquelas que o Brasil já vem adotando no sentido de que o estado
recupere a sua função de indução do desenvolvimento econômico.
Agora essa expectativa ela se dá em relação ao desempenho do presidente
Barack Obama que é o primeiro negro a ocupar a presidência da república
nos Estados Unidos. Eu acho que isso também é fruto do debate que a
sociedade americana experimentou na década de 60 e veio a comunir com a
politica dos direitos civis e que possibilitou a população negra o
acesso a universidade o acesso ao mercado de trabalho o que hoje tem se
como natural nos Estados Unidos o negro ser diretor de uma grande
empresa, ser prefeito de uma grande cidade, já tivemos prefeito em
Washington, que é a capital da república e hoje tem-se um presidente da
república, acredito que isso inclusive vai impactar positivamente a
sociedade brasileira no sentido de não discriminá-lo o agente público,
o político por conta da cor da sua pele ou de sua origem social.
EDELSON FREITAS - RÁDIO TROPICAL - SIMÃO DIAS/SE: Ministro se falando
sobre a aprovação do estatuto da igualdade racial, nós temos vários
aspectos não temos dúvida disso, mas quais os principais aspectos do
teor igualitário entre os povos e as raças que nós podemos destacar
como principais no estatuto da igualdade racial ministro.
MINISTRO: O acesso a educação, a questão da defesa das religiões de
matrizes africanas, a reafirmação do principio do compromisso do estado
brasileiro com as comunidades remanescentes de quilombos. E nós
tratamos também no estatuto de forma transversal a questão do esporte
do acesso a saúde, em fim, aos serviços assim básicos que vão garantir
a cidadania a comunidade negra brasileira.
EDELSON FREITAS: Como serão aplicadas as leis das cotas?
MINISTRO: Esse é um debate que está já bem avançado no Congresso
Nacional, ontem eu estive com o presidente do Senado senador José
Sarney, o projeto está numa comissão, na comissão de Constituição e
Justiça do Senado, e nós solicitamos ao presidente que olhasse com
carinho e desse serenidade ao processo de tramitação do projeto de
cotas no Senado. Evidente que ele encerra uma polêmica uma divergência
em torno do conteúdo do projeto, mas eu acredito que cabe ao Congresso
fazer esse debate de dirimir as dúvidas que existam em relação a alguns
pontos do projeto de cotas, mas não deixar de oferecer esse documento
legal a sociedade brasileira.
JORGE CALMON - RÁDIO CONTINENTAL AM - SERRINHA/BA: Ministro seria muito
interessante que o senhor pudesse fazer uma espécie de balanço sucinto
das atividades da secretaria que o senhor comanda aqui no país em se
tratando da questão que envolve a igualdade racial.
MINISTRO: Olha, eu gostaria de fazer uma colocação também em
perspectiva. Primeiro, nós temos um programa chamado Programa Brasil
Quilombola, que envolve 23 ministérios em uma ação voltada a oferecer
serviços essenciais às comunidades remanescentes de quilombo, que vai
desde o fornecimento de energia elétrica, saneamento básico, educação,
saúde, reforma das condições de habitação dessas comunidades e a devida
titulação das comunidades remanescentes de quilombo. Eu entendo que o
ano passado, nós avançamos bastante em termos de atender a 127
comunidades. Pretendemos este ano, ainda, instalarmos nove comitês
gestores da agenda social quilombola. Temos instalados nove comitês da
Agenda Social Quilombola, e esperamos este ano instalar o restante
desses comitês. Que, são formas do Governo, dos órgãos do governo
federal, juntamente com os órgãos estaduais e municipais e a sociedade
civil definirem que tipo de ação nós teremos junto às comunidades
remanescentes de quilombos. Acredito que esse formato possibilita a ser
um grande avanço e uma sustentabilidade na ação do Governo Federal na
assistência às comunidades remanescentes de quilombo. O objetivo de
termos a votação da Lei de Cotas do Estatuto da Igualdade Racial, isso
faz parte do balanço da Cepi (?), na medida que o estatuto está
tramitando na Câmara Federal. E, temos a possibilidade ainda, de neste
mês antes do Carnaval, votarmos o Estatuto da Igualdade Racial. A Lei
de Quotas, como aqui já coloquei, tem a possibilidade de ser votada no
Senado Federal. E, uma questão que eu havia esquecido de colocar, que é
o feriado nacional do dia 20 de novembro, que há também a possibilidade
de ser votado pelo Senado Federal. Já foi votado pela Câmara e foi
encaminhado ao Senado Federal, de forma que nós teremos a condição de
ter no dia 20 de novembro, não um feriado localizado em determinadas
regiões do país, mas sim um feirado, assim como é o feriado do dia 21
de abril para todo o território nacional. E há também uma agenda
voltada para as grandes cidades, que vai da qualificação de jovens
negros para o mercado de trabalho, que nós vamos lançar esse ano, que o
Plansec (?), onde pretendemos qualificar cerca de 25 mil jovens. Nós
temos um programa chamado Trabalho Doméstico Cidadão, onde pretendemos
qualificar milhares de empregadas domésticas no Brasil. Hoje, essa
profissão é exercida por 90% de mulheres e homens negros e em um grau
de informalidade muito grande. Apenas 30% dos trabalhadores domésticos
têm a sua carteira assinada e o nosso objetivo é fazer com que o
Programa Trabalho Doméstico Cidadão se expanda em nível de Brasil e com
isso qualificando e dignificando essa profissão.
RÁDIO CONTINENTAL BAHIA-SERRINHA (BA)/JORGE CALMON: o que é que está
levando o senhor a pedir urgência ao Senado no processo sobre a chamada
Lei de Quotas?
MINISTRO: É porque ela é urgente. Eu acho que é um debate que vem se
arrastando no Brasil. O primeiro projeto que tratava dessa questão foi
apresentado em 1999. Então, já fazem 10 anos que esse debate vem se
dando no Congresso Nacional e na sociedade brasileira. Então, eu acho
que já é hora do poder público, do Congresso Nacional, posicionar-se
sobre essa matéria. E a celeridade é por conta também do quadro,
também, de desigualdade. Eu acho que, assim como o presidente da
República coloca que quem tem fome tem pressa. Eu acho que quem tem
fome de saber, de inclusão, de mobilidade social, também tem pressa no
Brasil. E, já é hora do Brasil ultrapassar isso que é uma chaga na
sociedade brasileira, que é o retrato da desigualdade social.
RÁDIO RIO MAR-MANAUS (AM)/AMARILDO SILVA: sobre as 373 equipes do
Programa Saúde da família. Em particular: no ano passado aconteceu um
grande encontro aqui na Assembléia Legislativa do Amazonas, com as
lideranças quilombolas. E, foi apresentada à assembléia, não só pelo
Amazonas, mas discutida em nível nacional pelas representações
quilombolas, sobre a questão da medicação. Da forma de tratamento com o
negro, com o remanescente quilombola. Pois, segundo eles mesmos, a
questão de medicamentos para o controle da hipertensão, por exemplo,
eles devem ser diferenciados daqueles que são aplicados à pessoa de
pele branca - se podemos dizer assim. Como senhor vê esse ponto, essa
diferenciação, em particular a citação sobre o medicamento da
hipertensão, que causa uma certa divergência para o quilombola, para o
negro.
MINISTRO: Não. Não é para o quilombola, para o negro. É do negro para o
branco. Nós temos propensão a ter pressão arterial alta. Isso inclusive
já foi absorvido pelo governo federal, pelo orçamento federal. Nós
temos um programa de saúde da população negra coordenado pelo
Ministério da Saúde. A Cepir tem dialogado com o Ministério da Saúde no
sentido da implementação desse programa. Evidentemente, é essa a
questão que você coloca né, da qualificação dos profissionais de saúde
para enxergar especificidades, quando do atendimento do homem e da
mulher negra.
RÁDIO CBN-CUIABÁ (MT)-DAVI DE PAULA: Ministro, nessas metas para 2009,
o que está previsto para Mato Grosso em termos de recursos para as
comunidades quilombolas? Só lembrando, ministro, que aqui na baixada
cuiabana, nós temos o Quilombo Mata Cavalo, e que é uma área de
conflito. Infelizmente os anos vão passando e até hoje não se resolveu
o problema. Ora e outra ocorre despejo na área do Quilombo Mata Cavalo,
em Mato Grosso. Eu gostaria de saber o que que prevê, no caso, essa
meta para 2009, para Mato Grosso?
MINISTRO: A Agenda Social Quilombola dispõe de R$ 2 bilhões para serem
investidos até 2011. E a forma da liberação desse recurso, que não
sofre contingenciamento, é em função da apresentação de projetos
voltados às comunidades remanescentes de quilombo, que vão desde
saneamento básico, fornecimento de energia elétrica, reforma da casas.
Enfim, é toda uma agenda que envolve 23 ministérios. E vai depender da
capacidade dos gestores estaduais e municipais apresentarem projetos
para que esses recursos sejam liberados. Esse é um ponto. em relação à
questão do Quilombo Mata Cavalo, desse conflito que não é apenas nessa
região, por que a questão quilombola, o grande desafio que temos pela
frente é a questão fundiária, a questão da terra. Isso é uma função a
cargo do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, que eu
estive, tive um encontro recente com o ministro Guilherme Cassel, que
me informou inclusive que o Ministério do Desenvolvimento Agrário está
contratando um conjunto de servidores, de funcionários, de técnicos
agrônomos, agrimensores, enfim. Parte deles terá a função de atender a
essa demanda das comunidades remanescentes de Quilombos. Nós temos que
lembrar que durante um bom tempo, na década de 90, nós tivemos uma
política de desmonte do Estado, com incentivo à demissão, o que deixou
uma lacuna muito grande na prestação de serviços essenciais à
população, dentre os quais, hoje eu incluo as comunidades remanescentes
de quilombo e as tensões fundiárias que essas comunidades enfrentam em
seu dia a dia.
PERGUNTA: Enquanto essas áreas de quilombo ainda não são regularizadas,
isso não implica, não atrapalha o investimento do Governo Federal? Como
por exemplo, o Governo Federal liberou R$ 2 milhões para o Mata Cavalo.
Ficou em torno de 2 anos nas contas da prefeitura municipal e acabou
retornando aos cofres do Governo Federal, por falta da regularização da
área. Isso não tem ocorrido também em outras regiões?
MINISTRO: Olha, eu acho que há algum equívoco em relação a isso, porque
a questão fundiária não impede o acesso a serviços, a investimentos do
Governo Federal. Eu acho que deve ter ocorrido algum problema com a
prefeitura, no caso da não utilização desses recursos, que dependem
efetivamente da apresentação de projetos.
Porque os recursos liberados pelo Governo Federal são recursos
fiscalizados pelo Tribunal de Contas, pela Controladora Geral da União
e é fundamental que os investimentos sejam justificados a partir de
projetos onde, não só os órgãos de controle do Governo Federal, mas
também a sociedade poderá acompanhar e fiscalizar a execução desses
investimentos.
Então, eu acredito que há algum equívoco nesse campo, até porque nós
temos implementado ações junto a comunidades remanescentes de Quilombo
que ainda não têm a sua titulação definitiva.
RÁDIO MEGA FM-CAMPO GRANDE (MS)/EMÍLIA CHACON: Bom dia, ministro. Uma
das ações para este ano é a aprovação da Lei de Cotas. Eu queria saber
se já se tem ao certo a porcentagem que será proposta para essa Lei?
MINISTRO: Na verdade, o que está no Congresso Nacional, a grosso modo,
são cotas sociais com recorte racial. A cota social é um percentual de
metade das vagas das universidades públicas para estudantes carentes.
Dentro desse universo das vagas para estudantes carentes vai ser
definida uma cota racial, em função do peso da população negra em cada
estado.
Vou te dar um exemplo: no Rio de Janeiro, 49% da população é formada
por negros. Então nós teremos na cota racial um percentual de 49% da
reserva de vagas das cotas sociais voltadas para a população negra.
Assim como na Bahia, 80% da população é negra. Então, dentro do
universo de cotas, 80% estará voltado para a população negra. Mas eu te
diria que nós temos que aguardar o texto final do Congresso Nacional.
Esse projeto está no Senado e vai receber emendas e aperfeiçoamentos
que os senadores irão apor ao projeto e só a partir daí nós teremos
noção, efetivamente, do formato que a Lei de Cotas vai adquirir.
RÁDIO VERDES MARES-FORTALEZA (CE)/NILTON SALES: Senhor ministro, nós
vamos ganhar aqui no Ceará uma Universidade de Integração
Luso-Afro-Brasileira. Eu gostaria que o senhor explicasse qual a
importância dessa universidade?
MINISTRO: Primeiro, o governo do presidente Lula tem como prioridade
nas relações internacionais, a relação Sul-Sul, o que pressupõe um
estreitamento com os países da África. O Brasil tem sido muito
solicitado no sentido do estabelecimento de convênios e de parcerias
com países da África e também empresas brasileiras têm sido chamadas a
prestar serviços a países africanos.
Essa aproximação, nós entendemos também no âmbito da troca de
informação, de tecnologia e daí termos construído esta proposta de uma
universidade de brasileiros e africanos sediada aqui no Brasil, na
cidade de Redenção, que foi a primeira cidade a abolir a escravidão em
nosso país. Eu acho que isso será bom, Nilton, no sentido primeiro, do
estreitamento da relação entre os brasileiros e os africanos. Nós
precisamos conhecer melhor a África. A África não é uma coisa una. Há
uma diversidade muito grande no território africano do ponto de vista
cultural, do ponto de vista religioso.
Nós herdamos muita coisa da cultura e das religiões africanas. Eu acho
que é o momento de nós termos uma aproximação a fim de fortalecermos
essa identidade com o continente africano. Ademais nós sabemos que a
África é vítima constante de situação de fome, de miséria do povo, de
doenças. Eu creio que a grande contribuição que o Brasil tem a oferecer
ao continente africano é exatamente na formação e qualificação de
profissionais que irão voltar para seus países, em condição de ajudar
seu povo a melhorar a qualidade de vida.
APRESENTADORA: Ministro a gente sabe que o governo apresentou no
Congresso Nacional esse projeto de implantação da Universidade Federal
de Integração Luso-Brasileira chamada Unilab em agosto de 2008. Em
outubro do ano passado o ministro Fernando Haddad já fez a implantação
da Comissão que vai cuidar dessa universidade. Como está o trâmite no
Congresso?
MINISTRO: Eu não tenho assim informação detalhada do estágio da
discussão no Congresso Nacional, mas eu acredito que não teremos
problemas na aprovação dessa medida.
RÁDIO ITATIAIA-BELO HORIZONTE (MG)/- EDUARDO COSTA: A Universidade
Federal de Minas está concluindo amanhã o registro, ou seja, a
matrícula dos candidatos aprovados no seu último vestibular e pela
primeira vez a UFMG acolhe candidatos que tiveram bônus especial, foram
dados 10 pontos para aqueles que vieram de escolas públicas e mais 15
pontos para aqueles que declaram-se negros, a gente vê uma diferença
dessas cotas da UFMG ou nesse bônus em relação a outras universidades
porque aqui decidiu o colegiado, a partir de uma proposta do reitor,
não apenas reservar a vaga, mas deixar que todos possam disputar e ao
final aqueles que se destacam, entre negros e procedentes de escola
pública, ganham pontuação a mais e acabam tendo pontuação maior. O
senhor considera justo esse sistema da UFMG ao que pode compatibilizar
os interesses dos que são a favor e contra as cotas, ministro?
MINISTRO: Nós temos experiências muito variadas no Brasil em relação a
cotas. Como o conselho universitário da universidade ele decide por
aderir a cota ele vislumbra a realidade local e o nível de
convencimento da comunidade universitária. Eu considero válido e é algo
que nós devemos inserir assim no nosso catálogo enquanto a análise das
iniciativas feitas pelas comunidades universitárias no sentido da lei
de cotas. Eu só acho que a gente deve realçar, Eduardo, é que isso
demonstra que, embora haja polêmica, em relação a forma da
implementação da medida de cotas, mas na essência as principais
universidades do nosso país vem demonstrando o caráter positivo dessa
medida, eu acho que esse é o grande saldo dessa questão, e a polêmica
que encerra o debate de cotas, salva aquelas que são contrárias
radicalmente à adoção dessa política, quanto aos mecanismos, o formato,
que a lei de cotas vai adquirir, eu considero plenamente pertinente, eu
acho que o Senado Federal deverá observar essas iniciativas a fim de
chegar a um denominador, a uma síntese, que atenda à realidade
brasileira.
Eduardo: É, eu fico agradecido a reposta do ministro e gostaria de
salientar, ministro, que o que me parece diferente nessa ação da UFMG é
exatamente que não se premia o mau aluno só porque ele veio da escola
pública, só porque ele é negro. Como bem diz o reitor, o aluno que vem
de escola pública ou que tem a pela negra ele enfrentou uma corrida pra
chegar a universidade e uma estrada cheia de buracos e outros
obstáculos, enquanto aquele de uma classe média ou rico que vem da
escola privada viveu numa escola pavimentada, então o bônus ajuda
aqueles que chegam lá na ponta e que empatam, aí vai obter maiores
dificuldades, aí eu considero que é uma atitude, digamos, mais honesta
inclusive para com os que ficam fora por conta do bônus, não ministro?
MINISTRO: Eu acho, mas todas as universidades elas observam o mérito em
primeiro lugar, não tenho conhecimento de que uma pessoa que não tenha
se qualificado pelo fato de ser negra entrou na universidade. Por
exemplo, a universidade do estado do Rio de Janeiro e a UnB as pessoas
tem que se classificar na primeira fase do vestibular pra fazer jus,
que é eliminatória, para fazer jus a política de cotas, né, ao
mecanismo de cotas. Então, existem várias iniciativas que observam o
mérito mas com formatos diferentes na adoção da política de cotas, mas
eu concordo contigo e como reitor da UFMG que mérito deve ser observado
no ingresso de jovens independente da cor da pela ou da origem social
na universidade.
RÁDIO 96 FM – ARAPIRACA (AL)/AÍLTON ALVES: Muito bom dia, ministro. Bom
dia, ministro. Hoje a gente sabe que a internet é o terceiro meio de
informação em todo país, aliás, acredito eu que no mundo. Eu quero
saber qual a política que será colocada em prática pra facilitar o
acesso da classe negra, por exemplo, com relação à inclusão digital no
nosso país.
MINISTRO: Olha o governo já tem tomado medidas até universais porque
nós não podemos colocar esse mecanismo apenas para a população negra,
mas para a população carente de uma forma geral o acesso a essa
tecnologia via, primeiro, a computadores a preço compatível e acessível
à população mais pobre do Brasil. Temos também, até em nível do nosso
trabalho, buscado introduzir tele-centro junto a comunidades negras de
quilombos e comunidades pobre no Brasil. Eu acredito que hoje há,
assim, uma abertura muito grande de possibilidades de acesso da
população pobre do Brasil ao mecanismo, a comunicação virtual.
APRESENTADORA: Ministro, agora há pouco a gente conversou com uma
emissora e o senhor falou sobre o programa de saúde para a população
negra. A informação que a gente tem é que houve um grande seminário
nacional em 2004, onde se estabeleceram algumas diretrizes e depois a
gente não teve mais notícias da implantação desse programa. Como é que
está isso hoje?
MINISTRO: Na verdade esse programa quando - 2004 ainda não era ministro
né? Houve uma série de definição em relação ao programa Saúde da
População negra que ficou sem ser implementado durante um bom tempo e
nós repactuamos esse programa com o ministro Temporão ano passado e o
Ministério da Saúde assumiu o compromisso da implementação desse
programa. Ontem, inclusive, eu tive a oportunidade de receber o
prefeito de Paulo de Fontene, no Rio de Janeiro, onde tem um consórcio
com 14 municípios cujo o eixo central na nossa relação com esse
consócio é exatamente a questão da saúde da população negra, alimentos
"falciforme" já que nessa região do centro sul fluminense há uma grande
incidência dessa doença por conta do alto percentual de negros naquela
região. Então, o Ministério da Saúde já está atento a essa questão do
programa da saúde da população negra que tinha sido interrompido e ao
compromisso do ministro da Saúde, ministro Temporão, com a retomada do
programa e que o MEC efetivamente libere os recursos para que a gente
possa tocá-lo junto aos estados e municípios.
RADIO BRASIL SUL – LONDRINA (PR)/FÁBIO CAVAZOTTI: Ministro, gostaria
que o senhor trouxesse alguns dados aí a respeito de um tema que ainda
é polêmico que é a questão de ingresso de pessoas por meio das cotas
nas universidades, como é que o governo federal avalia quantitativa e
qualitativamente esse processo de cotas dentro das universidade nas
diversas experiências, se o governo federal tem acesso aos dados aí
inclusive nas universidades estaduais aí no nosso país?
MINISTRO: Nós temos a partir das informações que nos chegam das
universidades uma avaliação bastante positiva tanto do ponto de vista
do rendimento e da frequência desses jovens no ambiente universitário,
agora não foi feita assim uma pesquisa nacional de forma mais
abrangente ou coordenada pela Sepir ou pelo Ministério da Educação de
avaliação da política de cotas, ainda não tivemos condição de fazê-lo.
RADIO BRASIL SUL – LONDRINA (PR)/FÁBIO CAVAZOTTI: E há perspectiva de
um estudo nesse sentido, um estudo integrado, amplo, pra inclusive
combater as vozes contrárias desse tipo de política?
MINISTRO: Há necessidade na medida em que embora não haja uma lei
federal regulando a política de cotas na medida que a gente tem mais de
50 universidades públicas aderindo a esse mecanismo, eu acho que há a
necessidade de se fazer uma avaliação até para a sociedade brasileira
tenha a noção do impacto dessa medida na vida do nosso povo. Agora é
importante dizer que apenas no ano passado nós tivemos jovens formados
por cotas na universidade do estado do Rio de Janeiro e na Universidade
de Brasília, então nessas universidades é possível é possível não só
fazer um estudo da política de cotas em si na universidade, mas também
verificar como esses jovens formados pela política de cotas foram
absorvidos no mercado de trabalho, de uma forma em geral. Esse também é
um componente importante do processo de avaliação da política de cotas.
APRESENTADORA: Ministro, como foi a participação da sua secretaria no
Encontro Nacional de Prefeitos e Prefeitas que terminou, ontem, aqui em
Brasília?
MINISTRO: Nós tivemos, ontem, um painel com o secretário de Direitos
Humanos, Paulo Vanucci, e a secretária Nilcéia, das Mulheres, onde nós
situamos os gestores municipais da importância da adoção de políticas
de promoção da igualdade racial. Mostramos a partir do histórico da
sociedade brasileira, da necessidade do Estado não se colocar neutro
nesta questão. Quando há desigualdade cabe ao Estado ser um elemento de
redução da igualdade. Aí, mostramos que os municípios são fundamentais
para a implementação das políticas de promoção da igualdade racial. A
exemplo da saúde e do SUS que tem como centro nos municípios a
educação, nós só teremos êxito, em políticas de promoção da igualdade
racial na medida em que haja capilaridade junto aos municípios. E
tivemos uma boa recepção. Nós montamos um stand no Centro de Convenções
e, hoje, nós teremos a informação do grau de adesão dos municípios ao
Fórum de Igualdade Racial. Espero que eu tenha sido positivo e que eu
tenha sido convincente.
APRESENTADORA: Esse fórum é um mecanismo da secretaria de incluir essas
entidades, as prefeituras, no caso especificamente nessa luta contra o
preconceito, a discriminação. É isso, ministro?
MINISTRO: É, e também é uma forma de nós discutirmos a implementação de
políticas. Por exemplo, nós temos esta dificuldade, esse objetivo da
implementação da Lei nº 10.639/2003. Os municípios são fundamentais
para que a gente possa alcançar as crianças, no ambiente educacional
com a disciplina da escola da África. Então, essa é uma discussão que
ocorre no Fórum Intergovernamental de Políticas Racial (Fipir).
RÁDIO GLOBO – TERESINA (PI)/YANTOK SILVA: Ministro, queremos saber qual
é a avaliação que o senhor faz das ações realizadas ano passado e quais
os projetos para este ano?
MINISTRO: Olha, o balanço para o nosso trabalho, inclusive é importante
a sua pergunta, porque me dá oportunidade de falar da Conferência
Nacional de Promoção da Igualdade Racial que vai acontecer no final do
mês de junho, aonde nós faremos um balanço da atuação do governo em
relação às políticas de promoção da igualdade racial. É um fórum onde
os estados vão eleger delegados da sociedade civil e também
representantes públicos para participarem desse debate. E aí, nós
teremos a condição de fazer e apresentar à sociedade brasileira um
balanço da eficiência ou da eficácia das políticas de promoção da
igualdade racial e de nossa atuação.
RÁDIO GLOBO – TERESINA (PI)/YANTOK SILVA: Ministro, como é feito o reconhecimento de uma área quilombola?
MINISTRO: Primeiro, essa área tem que ser identificada pela Fundação
Cultural Palmares que faz a identificação dessa comunidade e a partir
daí, o Instituto Nacional de Colonização da Reforma Agrária, ele atua
no sentido de fazer um relatório, de marcar a área e fazer um relatório
antropológico da região e a conseqüente demarcação da área quilombola e
a sua titulação. Esse é o processo. Mas, eu volto a colocar que a
partir da certificação da comunidade, não está inviabilizado impedido o
acesso a serviços de agenda social que nós coordenamos em nível de
governo federal.
APRESENTADORA: Ministro, agora há pouco o senhor falou sobre a
Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial que vai acontecer
em junho, aqui em Brasília, que vai reunir 1.600 representantes de todo
o país. Mas eu gostaria que você explicasse as conferências estaduais
que vão acontecer nos estados preparatórias para essa grande
conferência. Como as pessoas participam desses módulos?
MINISTRO: Nós estamos dialogando com os governadores do estado, que
eles deverão emitir um decreto convocando as conferências estaduais que
poderão ser precedidas de conferências municipais, de onde sairão
delegados para a conferência estadual e que terá a função de tirar
delegados para a conferência nacional. A partir deste mês de março, já
está facultado a estados e municípios a realização das suas
conferências visando a nossa conferência nacional que vai ocorrer,
aqui, em Brasília.
APRESENTADORA: Tem que correr, né? Nós já estamos em fevereiro...
MINISTRO: Mas é sempre assim, um processo de conferência é sempre
corrido e não podia ser diferente na Conferência da Igualdade Racial.
APRESENTADORA: Ministro, já passou o nosso tempo, e gostaria de
agradecer mais uma vez pela sua participação no Bom-dia Ministro.
MINISTRO: Foi um prazer estar aqui com vocês e me coloco a disposição
de ser convidado ou convocado em outras ocasiões. A todos que
participaram conosco, muito obrigado e até o próximo programa.
Empresa Brasil de Comunicação S/A - EBC | CNPJ: 09.168.704/0001-42 | SCS - Qd. 08 Bl. B-60 - 1º Piso Inferior - Ed. Venâncio 2000 - Asa Sul - Brasília/DF