Arquivos: 22/01/09 - Transcrição
APRESENTADORA KÁTIA SARTÓRIO: Na pauta do programa de hoje um balanço sobre
as exportações do agronegócio no Brasil, que no ano passado atingiram um número
recorde de US$ 71,9 bilhões. O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, vai
explicar como será a regulamentação do decreto, publicado em dezembro de 2007,
que estabelece critérios para a produção, armazenagem, distribuição, comércio,
insumos e padronização dos alimentos orgânicos.
Reinhold Stephanes vai
conversar com a gente, também, sobre os efeitos da atual crise internacional,
que causou retração de crédito e por conseqüência o menor uso da tecnologia na
produção e fez com que a previsão do ministério da Agricultura para a safra
atual de 2008/2009 seja 5% menor que a anterior. O ministro da Agricultura já
está aqui no estúdio e começa agora a conversar com âncoras de emissoras de
rádio de todo o país.
RÁDIO BANDEIRANTES (SP)/RAFAEL COLOMBO: O ano
passado foi absolutamente atípico, a gente não precisa fazer um grande esforço,
para se lembrar, no primeiro semestre houve aquela discussão em todo o mundo a
respeito da inflação dos alimentos, de um possível impacto do aumento da
produção de cana de açúcar para a produção de etanol no aumento dos preços dos
alimentos. Depois, a chegada da crise econômica mundial a partir de setembro,
como já disse a Kátia, uma perspectiva de safra 5% menor neste ano. Eu queria
saber, ministro, o que, que o governo pode fazer de prático que tenha efeito
rápido em dois aspectos. O primeiro deles é para tentar manter a produção e o
uso da tecnologia avançada, e o segundo deles para tentar manter o nível de
emprego no campo. A perspectiva é de aumento de emissões no campo. Há algo que o
governo pode fazer para tentar reduzir o impacto da crise também na questão do
emprego na agricultura?
MINISTRO DA AGRICULTURA/REINHOLD STEPHANES: Você
já está pedindo uma análise geral sobre toda a agricultura. A pergunta é boa, a
pergunta é ampla, mas veja: é claro que há um ano, quando se falava em
agricultura, as perspectivas eram muito boas, principalmente porque se tinha
mercado, tinha preço. E a agricultura reage com muita rapidez a mercado e a
preço, então vamos colocar o grande exemplo do trigo. Nós aumentamos a produção
do trigo brasileiro de um ano para o outro em 50%, na última safra. Ora, um
aumento de 50% é um aumento extraordinário, isso tudo por que? Porque havia um
preço bom, o mercado mundial tinha estabelecido um preço muito elevado, havia
mercado evidentemente, e a resposta, ai deu-se uma linha de crédito e o seguro
aos produtores, e eles imediatamente reagiram e plantaram bem.
Então, a
agricultura tem essa facilidade, que ela reage com muita rapidez. Mas este
quadro que nós tínhamos a um ano atrás, evidentemente se alterou muito em função
da crise, que acabou também pegando a agricultura. Porque alguns setores, por
exemplo, a agricultura brasileira é a grande exportadora, é a maior exportadora
de carnes do mundo, a maior exportadora de café, de sucos. Quer dizer uma série
de produtos nós somos número um e temos um grande domínio no mercado mundial de
exportações. Em outros produtos como grãos, no caso da soja, nós perdemos ainda
para os Estados Unidos, mas estamos caminhando também para o primeiro lugar.
Então, à medida que algum país importador, como por exemplo, a Rússia,
em carnes, diminui a importação de carnes suína ou de carne de frango, isso
imediatamente causa impacto nos grandes centros produtores, como por exemplo, de
carne suína, Santa Catarina e outros grandes centros produtores. Isso
evidentemente cria problemas para a nossa agricultura, porque os preços acabam
caindo muito, e o mercado também, evidentemente cai.
Agora, o que a
gente pode fazer? O governo procura estabelecer uma política de crédito de tal
forma que todos plantassem. E a agricultura plantou 100% da área, mas ela não
plantou só porque o governo deu essas condições, ou deu crédito, mas também
porque a agricultura é diferente da indústria. Uma indústria ela pode com muita
facilidade dar férias coletivas, ela pode diminuir as linhas de produção. Na
agricultura isso não é possível, quer dizer, o agricultor ele tem que continuar
rodando, ele tem que continuar plantando. O equipamento está lá, a terra está
lá, e assim por diante. Então, você tem uma dificuldade maior, mas e isso é bom,
nós plantamos 100% da área, que nós plantamos no ano anterior. Agora, como você
falou, diminuímos um pouco a tecnologia, porque a tecnologia significa custo,
então a produtividade deve cair um pouco, mas talvez dois ou 3%, ou seja, não é
muito, ou até seria normal. Agora além disso também tivemos a seca no Paraná,
que ela foi efetivamente forte, perdeu-se 30% da produção de soja no Paraná, 25%
na de milho, e parte da produção de feijão. E essa seca que pegou o Paraná ela
pegou também o resto do sul, mas em menor intensidade, mas pegou o Uruguai e
pegou praticamente toda a Argentina. Tanto que a Argentina, no caso do trigo, a
produção caiu pela metade, e a soja também caiu bastante, o milho também caiu
bastante. Teve um outro aspecto positivo, que os preços melhoraram um pouco,
quer dizer, isso também é bom para os produtores brasileiros.
Mas de
qualquer forma o governo está atento desde o início em adotar instrumentos e
políticas que, primeiro, que plantassem, e que agora comercializem. Porque não
adianta se colher e depois com toda a colheita que já está começando no caso da
soja, por exemplo, e já em seguida vai se começar a colher a safra de milho para
ir plantar a chamada safrinha de milho. É que, se o preço dai cair muito, ou se
não tiver o mercado, já que as grandes tradings porque esse foi o primeiro
grande impacto da crise. As compras futuras acabaram, o crédito que vinha das
tradings acabaram. Os créditos dos bancos privados, porque como é que atua banco
privado? Banco privado é aquela frase simples, se tá sol e o tempo tá lindo, tá
maravilhoso, ele te dá o guarda-chuva, mas se chover, houver trovoada, ele tira
o guarda-chuva. Então os bancos, embora eles criam a crise, mas eles são os
primeiros a se autoprotegerem. Então ele vai faz uma análise, bom será que
aquele produtor de milho, que o mercado não está bom, será que ele vai conseguir
vender, será que ele vai ter preço? Eu acho que não, então ele não empresta,
então ele se retrai, porque ele passa a ser um produtor de risco.
Então
muitas vezes o governo tem tomado decisões e as decisões não chegam na ponta.
Mesmo que o Conselho Monetário decida, ou o presidente, tem decisões que o
presidente tomou em conjunto com o ministro da Fazenda, com o presidente do
Banco Central, e comigo, e que não chegaram na ponta e então há uma dificuldade
em fazer essa roda na área do crédito andar. Tanto que hoje, até onde eu sei, o
presidente hoje vai ter uma reunião com os bancos e vai discutir um pouco essa
questão. O presidente está muito incomodado com isso, como todos nós estamos
incomodados com isso. Mas de qualquer forma a gente tenta, enfim, acompanhar
isso quase que no dia-a-dia e adotar as medidas no sentido exatamente de que
você tenha comercialização e produção, tenha preço, não tenha desemprego. E ai
há uma coisa muito interessante, estou até me alongando um pouco, muito
interessante. Se a agricultura vai bem, 4 mil municípios brasileiros vão bem,
que são os municípios onde a agricultura é a base, se a agricultura vai mal eles
vão mal. E se eles vão mal, evidentemente gera a questão de emprego, o comércio
diminui, os bares trabalham menos, os restaurantes tem menos trabalho, os
caminhoneiros vão rodar menos. Enfim, a agricultura é muito dinâmica em quatro
municípios em 4 mil municípios brasileiros.
RÁDIO PEPERI-SÃO MIGUEL DO
OESTE (SC)/AGEU VIEIRA: Eu gostaria de fazer duas perguntas já que nós temos
assuntos importantes que preocupam o setor rural de Santa Catarina o sul do
Brasil, e as duas, inclusive o ministro já tocou nesses dois assuntos, eu
gostaria de aprofundar. Primeiro, nós estamos passando por um momento em que a
agricultura registra perdas devido a estiagem, que afeta principalmente as
lavouras de milho de soja e de fumo aqui na região. Ontem, a Contag e as
federações dos agricultores estiveram em Brasília reivindicando anistia ou,
então, a prorrogação dos débitos desses agricultores prejudicados pela estiagem.
A pergunta é: que tipo de reposta o governo pode dar a esses produtores e, a
segunda, a região acompanha com preocupação as dificuldades para exportação de
carnes de frango e de gado principalmente, aqui na nossa região, de suíno. O
senhor já falou um pouco a respeito desse assunto eu gostaria de saber quando o
senhor acredita que esse quadro vai ser normalizado, o quadro das exportações,
ministro?
MINISTRO: Vamos começar pela questão da estiagem. Os
levantamentos já foram feitos, aqueles que tem seguros, tinham o seguro, o
Proagro, seguro com empresas privadas, que são mais ou menos 15 mil produtores,
já entraram com os pedidos. As análises estão sendo feitas com rapidez pelo
menos se pediu isso para dar os recursos também com bastante rapidez.
Segundo, é que as linhas de financiamentos para o plantio da safrinha
seja liberado o mais rápido possível pra que eles tenham condições. E terceiro,
também o Banco do Brasil já tem instruções, e aliás a lei agrícola já prevê
isso, das prorrogações que eles precisam. Agora nós hoje já sabemos e estamos
estudando isso junto com o Banco do Brasil e o Ministério da Fazenda que esta
política que quando há uma queda de safra por questões climáticas ou mesmo você
tenha problemas por questões de renda de mercado, quer dizer, vai vender o preço
cai além do custo de produção, você jogar isso em cima do agricultor através de
crédito e prorrogação de crédito e prorrogação de dividas, não é a solução, você
vai endividando o agricultor. Nós temos que encontrar outra solução para isso,
claro que o seguro já é uma solução parcial. Mas esse seguro ainda não atinge os
níveis de cobrir efetivamente todos os prejuízos. Mas de qualquer forma dentro
dos instrumentos que o governo tem, ele já vem adotando inclusive nesse caso
especifico que aconteceu agora no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Em relação às carnes, veja bem, o Brasil exporta carne de maneira geral
para 150 países do mundo. Claro que alguns deles tem alguns tem impacto grande,
como a Rússia, que é o maior importador de carne. Na medida em que a Rússia se
retraia na sua importação, isso causa impacto, embora a retração possa
representar uma diminuição nas nossas exportações de 5 a 10%, mas isso já causa
impacto em termos de preço, e aí o preço cai e isso é ruim.
Mas veja,
vamos analisar os três setores, gado, em principio a carne de gado, nós não
devemos ter maiores problemas. Eu digo maiores, vamos ter problemas, mas são
problemas que nós podemos suportar. Então acredito que esse setor vai continuar
trabalhando normalmente, vai passar pela crise.
O frango, nós já estamos
num preço limite já muito baixo, mas o frango já há um cordo com os produtores
de frango em diminuir em 10% 15% ou até 20% a produção de frango no sentido de
evitar esse excesso de oferta já que a demanda está diminuindo um pouco. Mas de
qualquer forma no frango nós estamos recebendo missões das Filipinas nessa
semana que possivelmente vão abrir, com a China, os acordo já estão na fase da
China mandar missão ao Brasil, possivelmente nos próximos 30 ou 60 dias, para
credenciar plantas para exportação e assim nós estamos trabalhando com vários
outros países pra colocar essa diferença que nós não estamos conseguindo colocar
em alguns países que se retraíram nesse momento. Então eu acredito que a questão
do frango também nós podemos superar.
A nossa grande preocupação está
nesse momento com suínos, embora estamos trabalhando com mercados como o Japão,
o próprio mercado da China, mais ainda vamos demorar um pouco, aliás o mercado
também do Chile que está aqui perto também já está reabrindo, mas de qualquer
forma no caso do suíno vai demorar um pouco e eu confesso a você que eu ainda
não sei exatamente o que fazer. Porque é uma crise, já se discutiu já se
apresentou como proposta,vão financiar formação de estoques de carnes congeladas
através das grandes empresas produtoras em Santa Catarina, temos ai duas ou três
grandes empresas. Mas não sabemos se isto resolve, de qualquer forma é uma
questão que nós estamos acompanhando, os representantes do setor tem dialogado
constantemente com o governo, eles estão também angustiados e eu confesso a você
que eu também estou angustiado.
RÁDIO GUAÍBA - PORTO ALEGRE/RS - OTTO
HEROK NETO - Eu gostaria de fazer uma pergunta referente ao Rio Grande do Sul: a
questão da seca, o Rio Grande do Sul vem sofrendo nesses últimos meses com uma
forte estiagem, cerca de mais de 60 municípios já decretaram situação de
emergência, há prejuízos na safra de milho, soja e feijão, eu queria saber do
ministro que medidas podem ser adotadas para minimizar os prejuízos que esses
produtores terão com certeza agora para essa próxima safra.
MINISTRO: Eu
parcialmente já respondi essa pergunta, quer dizer, os que são do Pronaf, todos
eles tem Pro-agro, em fim é pagar rapidamente o Proagro deles. Os que fizeram
seguros com outras empresas eu já tenho o número o total entre Paraná, Santa
Catarina e Rio Grande do Sul que já entraram com pedidos, são 15 mil produtores,
então é acelerar o pagamento do seguro ou do Proagro, prorrogar evidentemente as
dívidas deles e dar novos créditos para que eles possam continuar plantando. A
gente sempre tem uma discussão com os bancos, os bancos acabam exigindo
garantias e muitas vezes eles não tem essa garantia para dar. Mas nós estamos
tentando superar também essa questão.
No momento, o que se pode fazer é
isto, é claro como eu já respondi anteriormente, essa questão tem de ser melhor
equacionada em termos estruturais em termos futuros. Agora, no Rio Grande do Sul
nós estamos com problema adicional, a seca no Rio Grande do Sul já está se
tornando uma questão quase que consolidada já dentro desse estudo de mudanças
climáticas. E nós já estamos concluindo, a Embrapa, através da sua plataforma de
estudos de mudanças climáticas, ela já está chegando à conclusão que isto já faz
parte desse processo de mudanças climáticas, embora você tenha os períodos de
seca há também períodos de chuvas muito fortes, então nós já temos que começar a
estudar a questão de armazenar a água quando chove para usar quando falta a
água, ou seja, passar para processos já de irrigação, outros processo de
produção, já que é possível que essa condição no Rio Grande do Sul continua se
repetindo.
A outra forma, é claro e essa é mais demorada, embora já está
em analise, em estudos, é você começar a desenvolver plantas que consigam
resistir mais tempo esses períodos de estiagem. Mas eu posso garantir que o Rio
Grande do Sul sobre esse aspecto passou a ser uma grande preocupação, não só
para quem produz, mas também para as instituições federais.
PERGUNTA:
OTTO HEROK NETO: Alguma medida específica para o apoio a comercialização dessa
safra que vem agora a partir deste ano, principalmente aqui para os produtores
do estado.
MINISTRO: Veja, a soja possivelmente a comercialização vai
ocorrer de forma relativamente normal, porque a China continua importando
bastante, é grande importador de soja, temos muitos outros países também, mas a
China para surpresa, aumentou a sua importação de soja ao invés de diminuir. Os
preços estão se mantendo com relativa firmeza o que também é bom, e estados como
o Rio Grande, Paraná e Santa Catarina que estão mais perto dos portos acabam
tendo uma certa vantagem comparativa com centro-oeste.
O milho, o
mercado está reagindo, nós estamos conseguindo exportar parte dos excedentes que
nós tínhamos estocados, que foi muito bom, o preço vem reagindo nos últimos 15 a
20 dias, acreditamos que vamos ter mercado. O feijão que é outro que você citou,
esse está ótimo, ótimo para quem conseguiu produzir porque quem perdeu com a
seca está péssimo, evidente, mas pra quem conseguiu produzir, o mercado reagiu e
está com um valor extremamente alto. Quem está reclamando são os nossos
consumidores, que estão pagando muito caro pelo seu feijão.
Agora, de
qualquer maneira, qual é a grande preocupação? Eu ainda conversei ontem com o
presidente da República, que, aliás, mostra uma sensibilidade extraordinária em
relação a isso, em relação a agricultura. Como fortificar, a curto prazo, as
cooperativas. Quer dizer, além do Banco do Brasil, nós temos que sustentar a
comercialização, porque as colheitas são feitas de forma muito rápida, se
concentram em dois ou três meses, e a comercialização vai ao longo do ano e como
as tradings não estão comprando e não há compras futuras, ou poucas compras
futuras, o preço na hora, porque o agricultor que colheu está precisando de
dinheiro e pode estar vendendo a preços muito baixos.
Nós temos que dar
condições para que ele possa sustentar essa comercialização a um prazo maior,
pra obter uma remuneração, uma renda melhor. Um dos instrumentos que se pode
usar, ou é o Banco do Brasil, como banco oficial ou fundamentalmente as
cooperativas. Nós estamos tentando injetar agora, rapidamente - isso foi
discutido ontem - R$ 2 bilhões nas cooperativas, como capital de giro para que
elas possam ser um instrumento para apoiar a comercialização. Porque do sucesso
desta comercialização vai depender o plantio seguinte. Então, nós temos que
sustentar essa comercialização.
RÁDIO DIFUSORA DE GOIÂNIA (GO)/EDSON
RODIO: As autoridades aqui do estado, da área econômica do governo, afirmam que
o estado pode tirar proveito da crise econômica porque é um grande produtor de
alimentos. Partindo desse raciocínio, eu acredito que o Brasil também está na
mesma situação, até porque temos estados que produzem mais alimentos que o
estado de Goiás e o setor agropecuário é o forte de toda essa situação. Eu
pergunto ao senhor: diante disso, qual é a política do governo, uma vez que a
agricultura empresarial reclama muito da falta de política para o setor? E
também para a agricultura familiar, no sentido de aumentar essa
produção.
MINISTRO: Bem, nós temos que ressaltar que oficialmente, o
estado de Goiás é um estado extraordinário em termos de capacidade de produção.
Assim como o Brasil é um país muito eficiente e, no concerto das nações, se
coloca hoje como destaque, não só pelo que ele já produz - exporta hoje produtos
pra quase 150 países, como em termos de perspectivas futuras, porque é um dos
poucos países que tem terra, que tem água, que tem sol, que tem gente e que tem
tecnologia. O Brasil tem uma tecnologia extremamente avançada em termos de
agricultura tropical. Então, tem todas as condições para dar resposta às
necessidades do mundo.
Claro que nós tínhamos projeções de aumento de
produção muito boas e uma participação muito boa do Brasil, nesse mercado
mundial, que se abria cada vez mais em termos de consumo de produtos agrícolas
não só por causa dos alimentos, mas também como matéria-prima no caso para
bio-energia. Isso, com a crise evidentemente, agora se arrefeceu, diminuiu. Mas
as projeções de longo prazo mostram que estas condições, na medida em que a
crise seja ultrapassada, porque pode demorar um ou dois ou três anos, não mais
do que isso, essa boa perspectiva do Brasil retorna. Agora, eu não diria que não
há uma política agrícola. Eu diria que existe uma política agrícola. Nós podemos
até, sob alguns aspectos, discordar dela.
Tanto ela existe que o
agronegócio brasileiro tem tido um desenvolvimento extraordinário o que falta,
talvez, seja uma política mais efetiva de crédito, de preço e de estudo dessa
questão do endividamento do setor rural. Quer dizer, são três coisas que
precisam ser, evidentemente, equacionadas. Nós estamos hoje com um grupo de
estudos, entre o Banco do Brasil, o Ministério da Fazenda - que sempre tem de
participar desse tipo de discussões, para que depois se possa viabilizar, já que
isso sempre envolve custos, envolve o orçamento de governo - e o ministério da
Agricultura, e também participam alguns técnicos de representações de
produtores, no sentido de ver que fórmula podemos utilizar para resolver essa
questão do endividamento, que já existe, para evitar que os endividamentos
futuros aconteçam. Que se tenha uma política de preço de sustentação, onde
efetivamente o agricultor possa ter o mínimo de renda e possa continuar a se
desenvolver e a continuar produzindo.
Então, eu acho que essas condições
todas de alteração e de melhoria da política agrícola estão em estudo. Eu não
gostaria de entrar, porque demora muito, mas nós temos uma agenda hoje, além
disso, que nós falamos, de dez pontos que consideramos importantes. Começando
desde a questão de fertilizantes, que tem sido uma questão extremante vulnerável
na agricultura brasileira, porque 75% dos fertilizantes são importados e um país
que é grande produtor, como o Brasil, não pode ficar dependendo de 75% da sua
necessidade de fertilizantes importados e que tem uma variação de preço
extremante alta e que tem um impacto no custo de produção também extremante alto
já que no mundo são poucos os países que dominam as minas e as jazidas desses
fertilizantes, como também no Brasil são três empresas que controlam a
comercialização. Essa é uma questão estrutural que tem que ser enfrentada.
A questão da defesa sanitária, animal e vegetal, que eu acho que nós
progredimos muito nesses últimos dois anos, mas também é uma questão em que nós
temos que avançar muito. E assim nós temos toda a pesquisa, evidentemente, que é
uma questão fundamental. A questão da tecnologia, da adaptação de novas
variedades geneticamente mais produtivas, mais resistentes. A questão das
doenças, o impacto das doenças, no caso da soja, a ferrugem. Enfim, cada produto
tem a sua doença. Então, nós temos aí uma série de questões, uma agenda. A
questão da infraestrutura e logística, principalmente aí no centro-oeste, é um
problema seriíssimo.
Quer dizer, você não pode trazer a produção do Mato
Grosso para os portos de Santos e Paranaguá. O custo é muito elevado. Nós temos
que encontrar uma outra saída. É claro que Goiás já está numa situação um pouco
melhor do que estaria o Mato Grosso. De qualquer forma, a questão da
infraestrutura e logística também são questões sérias. Então não é só questão de
política agrícola. É uma série de outras questões, uma outra agenda que nós
temos que estruturar, já que o Brasil caminha pra ser o grande produtor agrícola
mundial, o grande fornecedor de alimentos para o mundo.
RÁDIO DIFUSORA
DE GOIÂNIA (GO)/EDSON RODIO: Eu gostaria de fazer uma outra pergunta ao
Ministro, em relação a produção de orgânicos. Goiás caminha a passos largos para
essa produção de orgânicos, mas os produtos Ministro, esbarram na hora de
certificar o produto que é o que realmente garante a credibilidade. Está vindo
novidade por aí?
MINISTRO: Veja, foi regulamentada há muito pouco tempo.
Aliás, essa pergunta um outro colega seu fez e eu peço desculpa porque eu acabei
não respondendo. Acho que foi da Bandeirantes. Orgânico é um mercado bom e que
cresce não só dentro do Brasil, mas um mercado que cresce no mundo. Isso foi
regulamentado no ano passado e essa regulamentação foi extremamente importante,
foi fundamental porque ela estabelece os padrões de produção, os padrões dos
produtos e dão uma garantia para o consumidor de que existe uma regulamentação,
que é pra ele saber o que ele está comprando como produto orgânico, e dá uma
garantia também para quem produz, porque pode certificar o produto.
Essa
estrutura, entre você estabelecer essas regras todas, criar certificadoras,
passar a certificação, esse é um processo que talvez ainda demore um pouco. Mas
eu acho que nós estamos caminhando muito rapidamente para isso. O estado que
hoje é líder nessa produção e que avançou muito é o Paraná e mesmo no Distrito
Federal tem uma associação muito boa, muito forte. Eu acho que esses produtores
do Goiás precisariam trocar um pouco idéias com esses produtores do Paraná, que
já estão bem organizados, e mesmo aqui mais perto, do Distrito Federal no
sentido de conseguir avançar no processo de certificação. Porque o consumidor
quer ver e quer ter a certeza da origem de que ele está comprando um produto
orgânico. O produtor evidentemente quer produzir isso, para mostrar que está
produzindo um bom produto. Como isso tem um preço diferenciado e há uma classe
cada vez crescente que deseja esse produto diferenciado eu acho que esse é um
grande mercado.
RÁDIO BAND NEWS – SALVADOR (BA)/ROBERTA NERY: Os
fruticultores aqui do norte do estado estão enfrentando problemas com a
exportação. Há um problema de escoamento na produção. A gente gostaria de saber
se tem um projeto voltado para isso, porque depois de instaurada a crise, essa
produção está lá, parada.
MINISTRO: Roberta eu não tomei conhecimento
disso ainda porque normalmente, as associações que representam os produtores de
frutas ou mesmo os secretários de agricultura dos estados, enfim, sempre quando
esses problemas surgem de forma localizada, imediatamente eles mantêm contato
com o ministério, ou com autoridades do ministério, no sentido de ver qual é a
solução. Às vezes não existe solução. Quer dizer: produziu, há um mercado lá
fora, o mercado se restringiu, ele não tem mais como exportar para aquele
mercado, não tem às vezes como redirecionar para o mercado interno ou ele não
tem como armazenar, porque algumas frutas dessas tem o seu prazo, em termos de
armazenagem. Então, às vezes, efetivamente essas dificuldades existem. Eu tenho
que te afirmar que nesse caso específico do Espírito Santo, eu ainda não recebi
nenhuma informação.
O que você falou da Bahia, é claro, que eu sei. Lá
no pólo de produção de frutas de exportação, efetivamente houve uma grande
queda. Inclusive está havendo dispensa de trabalhadores. Isso aí nós já tínhamos
tomado conhecimento sim. Em princípio, nós ainda não temos uma solução sobre o
que fazer neste caso, porque aí foi uma questão de restrição de mercado
externo.
RÁDIO BAND NEWS – SALVADOR (BA)/ROBERTA NERY: Além da crise que
tem afetado a produção da safra de grãos no oeste da Bahia outro problema que os
agricultores tem enfrentado é a morosidade para obter licença. De acordo com a
Associação de Irrigantes faltam técnicos do Ibama para exercer a tarefa e acabar
liberando essas licenças, o que reduz a produção do oeste. A gente queria saber
se a agricultura tem alguma parceria com o ministério do Meio Ambiente para
agilizar esse processo dos agricultores do oeste da Bahia.
MINISTRO: É
uma parceria meio difícil, ela é complicada, claro que a nível de ministros nós
temos como obrigação uma boa integração, um bom entendimento. Nós temos
conversado muito, nós temos nos reunido muito, mas aparentemente, desculpa até
dizer isso no ar, muitos ambientalistas não gostam da agricultura. Embora eles
comam o produto, necessitam do produto, mas eles não gostam. Então é uma coisa
um pouco complicada. Quer dizer, há um conflito e eu como servidor público já há
quase 40 anos, servido de carreira e depois ocupando nesse período, muitas
funções, eu fico muito triste com isso. Quer dizer, que um agricultor, é ele que
produz, é ele que paga os impostos, é ele que paga nossos salários e que nós não
tenhamos a compreensão ou o funcionário não tenha a compreensão que ele precisa,
efetivamente, de rapidez e condições para produzir.
Eu costumo dizer o
seguinte: se nós funcionários não produzimos nada e não ajudamos, pelo menos não
devemos atrapalhar aqueles que produzem. Eu acho que tinha que ter muito mais
consciência, no sentido de uma análise mais rápida, desses processos para que
essas pessoas tenham condições de produzir. Agora existe também uma outra
questão e é por isso que eu tenho defendido a alteração do Código
Florestal.
Pelo Código Florestal brasileiro e é único no mundo, onde é
proibido plantar em várzea. De repente nós podemos estar, eu não sei bem qual é
o caso que está acontecendo, mas em várzea é que se planta. A várzea é úmida, na
várzea as terras são melhores. E o Brasil resolveu proibir plantar em várzea.
Então os gaúchos que plantam há 100 anos em várzea e 60% do arroz técnico do
Ibama, estão proibidos de plantar. Evidente que isso tem que ser observado com
mais brasileiro vem dessas várzeas, hoje pelo menos pelo Código Florestal e se
depender de um racionalidade e tem que ser resolvido. Esse tipo de reclamação
nós estamos recebendo de forma geral, de praticamente todas as regiões do
Brasil. Temos mantido muito diálogo, embora eu não posso dizer que temos
avançado o suficiente, com o ministro Minc do meio ambiente, no sentido de ver
se a gente caminha para equacionar alguma dessas questões, por que elas não são
poucas. São muitas em termos de Brasil.
Eu até aproveito pra te dizer
Roberta, se aplicar o Código Florestal da maneira que está, e aquele decreto que
pune os agricultores que não cumpriram o código florestal, um milhão de pequenos
proprietários brasileiros perderiam a sua propriedade se efetivamente
aplicássemos. É só pra mostrar como foi mal elaborado. Eu até as vezes brinco,
que eu acho que muita gente que participou disso, ou morava em Brasília ou em
Ipanema, quer dizer não sabia o que era agricultura.
RÁDIO VEREDAS – UNAÍ
(MG)/ELIAKIM ALVES: Bom dia ministro. O setor da agricultura foi o segundo setor
que mais demitiu no ano de 2008. Isso talvez em função da crise mundial. O que o
governo está fazendo para o setor, inclusive para os pequenos e médios
produtores?
MINISTRO: Eu até aproveito, porque eu esqueci uma resposta lá
atrás. Foi a primeira pergunta, quando se começou a perguntar sobre o saldo das
exportações agrícolas. Eu acho que vale a pena colocar isso ao Brasil, por que
praticamente todas as reservas que o Brasil tem e que se orgulha das reservas
que tem, que são extremamente importantes nesse momento de crise, foram geradas
100% pela agricultura. A agricultura é o único setor que além de pagar o déficit
dos demias setores, na área de exportação, é o que gera 100% do saldo na balança
comercial brasileira. Neste ano mesmo, nós fechamos as exportações do setor
agrícola em mais de US$ 70 bilhões importamos menos de US$ 10 e geramos um saldo
positivo de US$ 60 bilhões. É recorde, é um dado extraordinário. Aí pagamos o
déficit do setor industrial e do setor de serviços e ainda deu o saldo líquido
de mais de US$ 40 bilhões que foi o saldo da balança comercial brasileira. É bom
ressaltar essa importância que tem o setor agrícola para a economia.
A
pergunta é sobre demissões. Efetivamente foi o segundo setor que mais demitiu.
Foram 143 mil trabalhadores. Agora é importante, quando você decompõe e analisa
isso, o setor álcool-açucareiro sozinho demitiu quase 80 mil. Ou seja, a grande
demissão está concentrada em um único setor. O que foi demitido nos outros
setores é quase que normal. Não, demissão nunca deve ser considerado normal. O
que eu quero dizer é o seguinte: faz um pouco parte das nossas estatísticas.
Então foram pequenas as demissões nos demais setores e no resto do Brasil. A
grande demissão efetivamente se deu - quase 80 mil - no setor do álcool e açúcar
e aí concentrado muito em São Paulo e em Minas Gerais. Evidentemente, o governo,
quando viu esses dados, agora está estudando junto com esse setor para ver o que
se pode fazer pra evitar que esse processo se agrave.
RÁDIO VEREDAS -
UNAÍ (MG)/ Eliakim Alves: Sobre as demissões o estado de Minas, as regiões do
Alto da Paranaíba e sul de Minas são as regiões que mais produzem cafés no
Brasil. Ultimamente o café tem sofrido baixas, consequentemente e na cidade de
Iguapé, no sul de Minas onde 80% da economia da cidade são baseadas em torno do
café, ou seja, na produção, mão de obra e finalização do grão. E eu pergunto ao
senhor como está a política no setor de vendas de café para essas regiões, uma
vez que os insumos estão altos e o preço não está sendo competitivo, com isso
está tendo demissões nas fazendas de café. Na cidade de Iguapé, o prefeito
decreto estado de calamidade econômica na cidade, uma vez que 80% da renda da
cidade são voltadas ao café.
MINISTRO: O café foi o 7º setor de
demissões. Foram quatro mil demissões. Eu diria a você o seguinte: nós temos
praticamente três áreas hoje que estão com problemas maiores dentro da
agricultura: é a carne de suínos, é o algodão e é o café, sendo que o algodão é
um problema relativamente menor, porque é produzido basicamente em duas áreas no
Brasil, que é parte na Bahia, mas a grande maioria é no Mato Grosso, o número de
produtores é menor. Há um problema no mercado mundial de algodão e agora com a
diminuição de consumo mundial, principalmente roupas, não há muito que fazer.
Mas o setor que mais preocupa efetivamente é o café, desses três que estão com
problema, que é suíno, algodão e café. Por quê? Enquanto no algodão se pode
mudar ou esperar um ano, aguardar, o café quando você faz os investimentos,
começa a produzir, você criou uma estrutura pra produzir ao longo de 25 ou 30
anos. E o café é um dos poucos produtos que nos últimos seis anos não teve
alteração de preço. Envolve 360 mil propriedades, envolve dois milhões de
trabalhadores, que é um setor que emprega intensamente mão de obra e nós estamos
estudando algumas soluções que deverão ser anunciadas possivelmente nos próximos
dias ou nas próximas semanas. Quer dizer, como atenuar a questão do café. Eu não
vou adiantar agora, porque senão demoraria muito tempo, cinco medidas já foram
decididas e outras nós não chegamos a um acordo entre a área econômica e a área
da agricultura. E o presidente da República, inclusive ontem, quando tomou
conhecimento das decisões que já foram todas e das decisões que falta tomar, ele
avocou a si uma reunião que está convocando para a próxima semana entre a área
econômica e a área agrícola pra ver como é que nós podemos caminhar no sentido
de encontrar soluções melhores. Mas só posso te antecipar: é uma questão de
grande preocupação, talvez a número um neste momento, é a estrutura do café,
exatamente pelo número de empregos que cria, pelo número, são mil municípios
hoje que vivem e têm como a base de sua economia o café, e em consequência,
qualquer problema maior nessa estrutura do café gera questão social muito forte.
Isso preocupa muito o governo. Mas o que eu posso te garantir é que nós estamos
estudando isso e esse ano mesmo já tivemos três reuniões a nível dos ministros
da Agricultura e da Fazenda e já umas oito, nove reuniões a nível dos técnicos
desses dois ministérios, enfim, pra ver o quê que é possível fazer e como que se
pode agir em relação ao café, porque ali você não tem problemas por causa da
crise, ali já é um problema estrutural. Então se fosse só o problema por causa
da crise mundial, nós teríamos uma situação diferente, mas já é um problema
estrutural, e principalmente para os que plantam café arábica, porque aqueles
que plantam o a robusta e o conilon, no Espírito Santo e em algumas áreas de
Minas, esses embora o preço do café é bem menor, mas o custo de produção também
é bem menor. Já o arábica, e esse plantado principalmente nas encostas e topos
de morro, que é pouco mecanizado, evidentemente tem um custo muito maior e o
preço no mercado não está respondendo a isso. O custo hoje está, pelo menos o
custo operacional sem contar depreciações, o custo operacional está em 270, 280,
embora os produtores acham que é um pouco mais e o preço de mercado, estão
conseguindo vender a 250, 255, no máximo 260. Então há um desequilíbrio que não
é só momentâneo, porque ele já vem vindo já há alguns anos.
RÁDIO
ITACAIÚNAS - MARABÁ (PA)/ MARKUS MUTRAN: Minha pergunta, ministro, é com relação
ao impacto que o prolongamento da crise internacional pode causar no setor
pecuário. Se hoje o Brasil ostenta o título de maior exportador de carne bovina
do mundo, isso se deve muito ao nosso sudeste do Pará, que possui um dos maiores
e melhores rebanhos bovinos do país. Mas apesar dos muitos esforços do segmento,
de fato o quadro aqui já é crítico. E como consequência disso, já há registro de
paralisação de frigorífico e também demissões. Caso isso se prolongue, ministro,
o que o governo poderá fazer pelo setor?
MINISTRO: Eu até gostaria de
dizer que eu andei por essa tua região, possivelmente você ainda não tinha
nascido, na década de 70. Eu participei da abertura dos primeiros trechos da
Transamazônica e da primeira instalação de comunidades ali na região de
Altamira, andei muito aí por essa região toda, inclusive Marabá. E tenho muitas
saudades daí. Mas a pergunta é boa. Claro que se isso se prolongar muito, todos
nós vamos pagar um preço por isso, não há dúvida. E muitas vezes não há muito o
que fazer. No caso de um bovino, efetivamente o Brasil tem a melhor pecuária do
mundo, 40% do mercado de carnes hoje, 40% do mercado de exportação de carne já é
nosso, temos tendência a crescer, nos firmar. Nós mandamos carne pra quase 150
países, o que é bom, porque aí diversificamos os nossos compradores. Mas de
qualquer forma, nós estamos sofrendo uma pequena restrição. Nós esperamos que ao
longo desse ano isto seja resolvido. Eu acho que essas restrições de mercado não
vão durar mais do que um ano e acredito até que a pecuária, claro, com alguns
percalços que ela vai ter, e ontem por coincidência eu tive reunido, ontem
alguns frigoríficos aí que estão instalados, o Bertin era um deles, outro eu não
me recordo agora o nome, porque o Bertin tem quatro unidades aí na região, mas
uns outros estiveram comigo. Também teve o secretário da agricultura do Pará
ontem comigo, também teve o presidente da Federação da Agricultura do Pará e
outras pessoas, exatamente, nós tentando conversar um pouquinho sobre essas
questões e aí ver o quê que se pode fazer. Mas não há muito a fazer em termos de
governo. Claro, financiamentos, créditos, sobre esse aspecto sim. Mas mesmo
créditos e financiamentos, se eles não forem a uma taxa de juro compatível, eles
também não resolvem. O que nós estamos lutando e trabalhando muito é nas frentes
de abertura de novos mercados, isso sim. Nós temos que procurar alguns mercados
que ainda têm condições de serem abertos por nós. Isso nós estamos fazendo pra
ver se esses excedentes que não conseguimos colocar nesses mercados que estão se
restringindo, que a gente possa reencaminhar para outros. E cada vez mais fazer
acordos sanitários. O meu secretário de Defesa Sanitária, que aliás é uma pessoa
excepcional, acho que o Brasil todo hoje concorda que nós avançamos muito nessa
questão da defesa sanitária, são os acordos que nós estamos a cada dia assinando
com novos países, no sentido de abrir novos mercados para os nossos produtos de
origem animal. A União Européia já tinha um mercado muito alto e esse mercado
caiu bastante devido aos problemas que nós tivemos. Nós estamos reconquistando
esse mercado, nos adaptando melhor às regras e às normas da União Européia.
Neste momento está, no Brasil, uma auditoria da União Européia e nós estamos
acreditando que ela seja favorável, porque aí nós podemos, talvez, voltar àquela
condição de grande exportador para a União Européia. E isso melhora um pouco a
posição brasileira.
RÁDIO GRANDE FM - DOURADOS (MS)/ CÍCERO FARIAS: O
governo está fazendo a regulamentação dos produtos orgânicos, mas que tipo de
incentivo ou programa já existe para que os assentados e produtores familiares
possam entrar neste tipo de produção ou melhorar o que já produzem? Pergunto,
porque no sul de Mato Grosso do Sul, são milhares de assentados e pequenos
produtores rurais e existe apenas um núcleo de produção de orgânicos aqui na
cidade vizinha, de Glória de Dourados. No assentado Itamaraty I e II já são mais
de 1.400 famílias, por isso, é o maior do Brasil.
MINISTRO: Ao Ministério
da Agricultura e a mim cabe, basicamente, a regulamentação e isto foi feito.
Cabe a questão de abrir mercados externos também. A questão de organização da
produção e do financiamento está mais na área do Ministério de Desenvolvimento
Agrário, porque esses assentamentos têm quase que uma vida própria e uma
orientação e uma coordenação também próprias. E também ao Serviço de Assistência
Rural do Estado. Aí, cabe pouco ao ministro nesta área de organização e de
tecnologia de produção.
APRESENTADORA KÁTIA SARTÓRIO: Ministro, ontem, o
Copom acabou reduzindo a taxa de juros em um ponto percentual. De que maneira
isso vai refletir na agricultura, nas dívidas que os agricultores têm,
principalmente, no setor de café que o senhor citou agora a pouco, onde a dívida
deles chega a R$ 3 bilhões?
MINISTRO: A taxa Selic é mais um instrumento
de política de governo, ela tem muito a ver sobre o impacto na dívida pública,
ela pode ser um sinalizador para os juros privados, mas ela tem um impacto muito
pequeno. Os juros que nós pagamos no dia-a-dia, se formos ver quem paga 6% ou 7%
de juros em seu cartão, a redução pode ter um impacto de 0,1 ou 0,2 pontos, ou
seja, ao invés de pagar 7% vai pagar 6,8%, ou seja, o impacto é extremamente
pequeno sobre esse aspecto. Eu diria que, na Agricultura, o impacto é nulo. Ele
é um impacto para a Economia como um todo, como um instrumento de
desenvolvimento e combate à inflação, como diz, e quem tem um grande impacto
sobre a dívida pública e sobre a captação de recursos por parte do governo.